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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Vamos fingir ou fazer de conta?

Vamos fingir que sabes o significado das palavras que me disseste. Vamos fingir que te importas. Vamos fingir que me queres. Vamos fazer de conta que não a queres. Vamos fingir que consegues tomar uma decisão. Vamos fingir que tomas uma decisão daqui a dois dias. Vamos fingir que és feliz. Vamos fingir que eu sou feliz. Vamos fingir que és feliz sem ela. Vamos fingir que és infeliz sem mim.

Vamos ser realistas de uma vez por todas.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Enquanto afastados, desnorteados.

De um parapeito da janela solta-se a vontade de te ter a mim atrelado. O vento partilha comigo o desejo de voar para longe daqui, mas voasse eu como ele e teria a força necessária para te fazer vir ao meu lado.
Nunca produzi correntes de atracção como ele de ar. Se o vento quiser, leva tudo pela frente. Eu não te consigo levar a ti.
Colaste-te à terra, um patamar seguro de onde não te vês cair. E no entanto, contigo no chão, comigo à janela funcionamos como um íman. Eu sou um polo, tu o outro. Formamos um dipolo que pela natureza que lhe é intrínseca, não pode ser separado. (ou pode?)
Porque se nos dividem na vida nascem dois ímanes menores cujos polos se recriam. O tamanho diminui mas a intensidade não esmorece. O polo sul continua sempre atraído pelo norte uma e outra vez, continuamente, eternamente. A hipótese da inseparabilidade dos polos nunca foi corroborada. Seremos nós os primeiros a faze-lo?
E se esses polos magnéticos de dois ímanes se aproximarem, as forças magnéticas interagem entre si de forma singular. E para nos repelirmos teríamos que ser iguais. Mas não somos! Tu estás aí em baixo e eu aqui à janela! Invertemos os lugares e as linhas de força escasseiam agora no teu espaço. São linhas invisíveis, fortes do meu lado e fracas do teu. Mas mais uma vez: são as forças opostas as que se atraem. E se podemos armar um equilíbrio e apanhar o seu balanço, para quê recuar?
Se a origem do magnetismo reside no berço da nossa organização atómica, para quê elevarmos a nossa escolha aos mais altos planos da racionalidade?
Se a atracção é espontânea, para quê impor a distância?
Enquanto afastados, desnorteados.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Dia inumerável

Insignificante. Foi esta a primeira palavra que escolhi, mas depois pu-la de lado. Na verdade, poderia apelidar de Justificado o que não queria saber. Qual a utilidade de saber efectivamente que dia era aquele? Para quê chamá-lo pelo número? Para poder lembrar-me daqui a um, dois, cinco meses, um ano do aniversário de uma ocasião que não quis ver crescer aos meus pés? Em concreto, não a vi sequer. Desviei a minha atenção para a altura do prédio da frente, e nunca me parecera tão grande. Eu ali, pequenina, invisivelmente anã, ou mais do que isso, a vulgar formiga a mingar perigosamente nas margens da sua dor. Vi carros, tantos carros. Passaram por nós pessoas, umas de mãos dadas. Sozinhas, poucas. Não olhei para ti uma única vez. Deixei-te na frente, a comandar, e sentei-me mais abaixo, onde deixasses já de fazer parte do meu horizonte que, sabia eu, ia forçosamente deixar de te incluir. Sei que juntei as mãos enquanto falavas as tuas palavras pausadas. Num gesto tão banal, concentrava as forças que me faltavam. Enquanto debitavas o nosso fado, eu desfazia as mãos que às vezes me davas, enviando-lhes a dor que me ofereceste. E nisto, tinha o corpo rígido, pesado, sofrido. A minha estrutura podia ter construído ali uma cratera, não fosses tu estar lá a segurar-me. Pouco mais eu dava sinais de estar viva, à parte o pescoço que se orientava para o lado oposto ao que ocupavas. Contraí nessa posição todas as células desta casca, congelei-me inteira para poder depois dizer-te que ainda estava viva. E tu falavas, a medo. Era quase um sussurrar, um leve som que davas às frases curtas, sucintas, para dizeres depressa o que achavas que conseguias. O meu corpo começou a tremelicar, logo depois a tremer. Eram sinais de quem não aguentava as tuas profecias, calculadas com base em distâncias que ainda agora não meço como sendo grandes. Elas, as que nos afastam, não são mais do que um dado adquirido e muito pouca importância se lhes deveria atribuir para além dessa. Oh menino, não vês que o meu corpo congelado se derrete? Não vês os sulcos que as lágrimas causam logo abaixo dos olhos que não consigo que te vejam?
Algum tempo depois saíste do teu sítio e ficaste mais perto. E o lado que eu reservava para te evitar foi o que ocupaste. Viste-me, já depois de teres a cara caída e em direcção ao chão, os braços desleixados sobre os joelhos, sim, isso eu reparei em ti. Viste as minhas lágrimas, tão desconhecidas por ti ainda, e encostaste-me ao teu calor, num gesto de quem lamentava o que nos estava a acontecer.
Eu lamento. Choro a morte do que existe entre nós, o que o vento ainda não nos roubou mas que com o tempo se sumirá.

domingo, 10 de outubro de 2010

Ontem

Devolve-me o ontem. Por favor, devolve-me o ontem.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Qual a área de estragos que a bomba deixará por aqui?

Nunca te dediquei muitas palavras, mas bem sei que as mereces. Não me perguntes a razão de o não ter feito, não sei ao certo. O que sei, e me dói, é que talvez exista um fundo de independência por aí entretido. Eu, tão dependente e às vezes tão desligada daqueles a que me apego. Porque sim, apeguei-me.
Tudo o que te posso dizer é que a bomba caiu causando mais danos do que eu esperava. Para dizer a verdade, não te via como alguém capaz de premeditar uma guerra. Eu imaginava-te do outro lado, um guerreiro a empilhar sacos de areia enquanto sofria um ataque.
Mas a bomba caiu mesmo. Mas logo agora, depois de manifestos que não a faziam adivinhar? Não esperava que as reviravoltas se dessem sem verdadeiros indícios, ataques previsíveis à tranquilidade.
De que vale o medo agora que já se vê o fogo, o fumo? De que serve mais moderação, agora que tudo temo ter perdido?
Há em mim um mal estar maior do que tu. Se quando voltar a levantar o olhar já não estiveres aí, prometes que de quando em quando podes voltar até mim?

quarta-feira, 14 de julho de 2010

from Cinema Paradiso

Alfredo: Once upon a time, a king gave a feast. And there came the most beautiful princesses of the realm. Now, a soldier, who was standing guard, saw the king's daughter go by. She was the most beautiful one, and he immediately fell in love with her. But what could a poor soldier do when it came to the daughter of the king? Well, finally, one day, he managed to meet her, and he told her that he could no longer live without her. The princess was so impressed by his strong feelings that she said to the soldier: "If you can wait 100 days and 100 nights under my balcony, then at the end of it, I shall be yours." Damn! The soldier immediately went there and waited one day. And two days. And ten. And then twenty. And every evening, the princess looked out of her window, but he never moved. During rain, during wind, during snow, he was always there. The bird shat on his head, and the bees stung him, but he didn't budge. After ninety nights, he had become all dried up, all white, and the tears streamed from his eyes. He couldn't hold them back. He no longer had the strength to sleep. All that time, the princess watched him. And on the 99th night, the soldier stood up, took his chair, and went away.

Savatore: [later in the film, Toto gives Alfredo his interpretation] ... In one more night, the princess would have been his. But she also could not possibly have kept her promise. And it would have been terrible. He would have died. This way, however, at least for 99 days, he was living under the illusion that she was there, waiting for him.

Citações de CINEMA PARADISO

quarta-feira, 30 de junho de 2010

"Later" to say goodbye

If Not Later, When?

“Later!” The word, the voice, the attitude.

I’d never heard anyone use “later” to say goodbye before. It sounded harsh, curt, and dismissive, spoken with the veiled indifference of people who may not care to see or hear from you again.

It is the first thing I remember about him, and I can hear it still today. Later!

I shut my eyes, say the word, and I’m back in Italy, so many years ago, walking down the tree-lined driveway, watching him step out of the cab, billowy blue shirt, wide-open collar, sunglasses, straw hat, skin everywhere. Suddenly he’s shaking my hand, handing me his backpack, removing his suitcase from the trunk of the cab, asking if my father is home.


ANDRE ACIMEN, in "Call Me By Your Name"

domingo, 27 de junho de 2010

sábado, 26 de junho de 2010

"But it might have started way later than I think without my noticing anything at all. You see someone, but you don’t really see him, he’s in the wings. Or you notice him, but nothing clicks, nothing “catches,” and before you’re even aware of a presence, or of something troubling you, the six weeks that were offered you have almost passed and he’s either already gone or just about to leave, and you’re basically scrambling to come to terms with something, which, unbeknownst to you, has been brewing for weeks under your very nose and bears all the symptoms of what you’re forced to call I want. How couldn’t I have known, you ask? I know desire when I see it—and yet, this time, it slipped by completely. I was going for the devious smile that would suddenly light up his face each time he’d read my mind, when all I really wanted was skin, just skin."

ANDRE ACIMEN, in "Call Me By Your Name"

Happy Everafter In Your Eyes

The morning sunrise spread her wings
While the moon hung in the sky
Held the sea in your hands
And happy everafter in your eyes

Couldn't leave you to go to heaven
I carry you in my smile
For the first time my true reflection i see
Happy everafter in your eyes

Every star in the night
Promises the dawn
I will be there if you fall
To ever so heavily rest upon

All that i can give you
Is forever yours to keep
Wake up every day with a dream
And happyever after in your eyes

Happy everafter is in your eyes

Happy Everafter In Your Eyes,
BEN HARPER

sexta-feira, 25 de junho de 2010

(ouro branco sobre) AZUL

O azul deixou-me. O que eu tinha era um azulão, o tom forte e intenso que corria numa roda viva sobre o presente. Vi-o resistir, pigmento a pigmento, a uma mistura entre cores que sobre a paleta se abateu. Os movimentos circulares eram repetidos e vigorosos, levados ao extremo. A força era humana e a raiva animal num encontro feroz que se pintava ora em amarelo, ora laranja, vermelho por adição, vermelho por imposição. O vermelhão soltou-se, cresceu sobre o laranja, ateou um fogo, ardeu na forma de labaredas altas, altas temperaturas. Ai pai, ai mãe, ai gente! Ai dor, ai azul ausente! A carne a sangrar, a pele a pelar, o sangue a pintar. O cheiro a entranhas assadas, as cinzas carnudas, os restos espalhados. A lua cheia, as flores a secar, a terra a tremer, o castanho a chegar. O fumo a adensar-se no ar, a entalar-se nas nossas fossas, nos buracos da terra. A fogueira foi acesa e a carnificina deu-se. Devagar, devagarinho, aos gritos, nos cantos, com calma, nas extremidades, aos berros, contida, desgostosa, desiludida, depressa, a correr, a derreter, a espalhar chamas, a gritar, a calar, a chamar. Até a apregoar. O adeus chegou. Oh maleita da dor obrigas a verter lágrimas, a saltar muros, a partir a cabeça. Vociferas ao coração como uma fera brada ao ouvido da presa. És enganosa, és mentirosa, mas contudo real. Ai como mentes. Se ao menos, se ao menos… Se ao menos expulsasses o sentir, se esvaziasses, se deixasses o céu. Deixa de ser sol, acaba com os raios que com raios me iluminas. Só não me peças para ser lua.

Já pediste. Já conseguiste. Crescente na noite povoaste o escuro, enunciaste ouro branco sobre o azul. Ai azul que tardas. Porque te perdeste na tarde? Estás debaixo do manto branco da lua, aprisionado. Desce daí. Ouviste-me? Desce daí! Que ordens te esqueces de seguir? Vá, desce daí que o meu coração está a apagar-se. Deixa esse branco, desprende-te. A tranquilidade não mora aí, olha a ilusão a que subiste. Azul, vem até aqui. Foge, corre, não lhe dês mais a mão nem o dedo. Dá corda às pernas, acelera os pés e ensina-lhes o que é a velocidade. Anda azul, pinta-me a mim e ilumina-me tu do que é tranquilo. Não o deixes levar-te. Senta-te, encosta-te a mim, eu dou-te a mão e impeço-te de fugir.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A suicide note

Maravilhosa esta carta escrita ao seu amor, Leonard, antes de se suicidar:

Dearest,

I feel certain that I am going mad again. I feel we can't go through another of those terrible times. And I shan't recover this time. I begin to hear voices, and I can't concentrate. So I am doing what seems the best thing to do. You have given me the greatest possible happiness. You have been in every way all that anyone could be. I don't think two people could have been happier 'til this terrible disease came. I can't fight any longer. I know that I am spoiling your life, that without me you could work. And you will I know. You see I can't even write this properly. I can't read. What I want to say is I owe all the happiness of my life to you. You have been entirely patient with me and incredibly good. I want to say that — everybody knows it. If anybody could have saved me it would have been you. Everything has gone from me but the certainty of your goodness. I can't go on spoiling your life any longer.
I don't think two people could have been happier than we have been.

VIRGINIA WOOLF

terça-feira, 22 de junho de 2010

Às vezes sim, às vezes não

«Quando amamos alguém, não perdemos só a cabeça, perdemos também o nosso coração. Ele salta para fora do peito e depois, quando volta, já não é o mesmo, é outro, com cicatrizes novas. Às vezes volta maior, se o amor foi feliz, outras, regressa feito numa bola da de trapos, é preciso reconstruí-lo com paciência, dedicação e muito amor-próprio. E outras vezes não volta. Fica do outro lado da vida, na vida de quem não quis ficar do nosso lado.»

MARGARIDA REBELO PINTO, in "O Dia em que te esqueci"

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Arte da espera

"Existem artes insuspeitas.
Para lá dos cânones, para lá do que se formalizou designar por arte, encontra-se formas de ser e fazer inesperadas que, pela raridade, pela qualidade única, mas ainda assim reconhecível, nos fazem perceber que abandonámos os terrenos da trivialidade e, de repente, nos confrontamos com qualquer coisa que empolga os sentidos, emociona, e nos remete para uma dimensão estética.
Às vezes, escapando ao que sabemos sobre o belo, reparamos em olhares aflitos, tranquilos ou intensos, em movimentos de mãos que bailam no ar, em frases que ressoam e ficam a pairar depois de ditas, em formas de andar ou mover o corpo que contam histórias ou se insinuam em nós de forma inesperada.
Topei um destes dias com uma arte de que já ouvira falar. Uma arte que Hermann Hess refere, uma e outra vez, com a elegância que o distingue: a arte da espera. [...]"

ISABEL LEAL, in Crónica "Da arte da espera"

Too much love... Will it kill you?

...
Too much love will kill you
Just as sure as none at all
It'll drain the power that's in you
Make you plead and scream and crawl
And the pain will make you crazy
You're the victim of your crime
Too much love will kill you every time

Yeah too much love will kill you
It'll make your life a lie
Yes too much love will kill you
And you won't understand why
You'd give your life you'd sell your soul
But here it comes again
Too much love will kill you
In the end
In the end

Too Much Love Will Kill You,
QUEEN



Queen - Too Much Love Will Kill You

domingo, 13 de junho de 2010

(quase) Um círculo depois de uma ponte em chamas

Serpenteia. Presa por uma mão, faz dobras no ar, a correr pelos mesmos sítios que a pressão de ar comanda. Faz a mesma forma que os «S’s». Dá agora ares de uma linha curvilínea. Desenha um «A» sem querer. A realidade aterrou numa fita de cetim que não acredita no fado. Mas o fado escreveu-se nela pelo vento.
Cresceu um arco no céu. Uma sombra! Passou-lhe uma sombra preta de um preto muito muito escuro por baixo. Mesmo reconhecendo-a, Maria quis perguntar-lhe o nome.
- Fantasma – respondeu.
- Estava à tua espera.
- Porquê? Queres que te leve comigo?
- Conheces o caminho?
- Consigo chegar à encruzilhada, até aí não me perco, mas não sei qual o caminho que me leva à ponte.
- Voltaste e ainda não conheces a ponte?
A sombra não sabia com que palavras poderia responder e então calou-se perante a cobardia que lhe estava atravessada na garganta.
- Leva-me lá – pediu-lhe a Maria.
- E se estiver a arder?
- Então sabes. Sempre soubeste.
- Não te posso fazer andar por caminhos em chamas. Não lentamente.
- Mas eu deixei de saber correr.
- Não falo de velocidade, assim nesses termos. Não falo de distâncias e tempo, de quocientes que se calculam um por um e a todos. Não é um quociente igual a esses, fácil. Não são precisas descobrir incógnitas. Não é uma equação, mais depressa seria uma inequação. Não é matemática, só que implica lógica.
- Foste tu que criaste as labaredas?
- Que…
Ela interrompeu a sombra, atrasando a pressa que esperava na resposta.
- As primeiras? Foste tu?
- Eu…
Interrompe-a uma segunda vez:
- Não respondas.
Preferiu não conhecer a resposta, mas logo a seguir pensou que os minutos de conversa difícil pudessem ter mudado um rumo com o qual começava a mostrar sinais de se conformar, de curtos em curtos períodos. Talvez estivesse descrente em si. De qualquer forma, essa descrença nunca foi forte o suficiente para a fazer desligar-se de uma emoção que não crescia em iguais proporções por outros caminhos. Afinal nunca se conformou. A palavra é outra, mas não partilha laços com a conformação e a resignação. Ou as escalas dos sentimentos se tinham alterado e ninguém a avisou, ou então a verdade seria mesmo que todas as alternativas que lhe pareceram possíveis e que ela tomou depois do fim nunca a fizeram sentir que fosse o suficiente e ela vivia insatisfeita, a interrogar-se sobre o «quê?» que faltava em cada possibilidade. Anciosa, Maria preenche o silêncio que ela própria criou:
- A ponte, continua em chamas?
- Estás à espera de uma resposta que conheces.
- Não é de uma resposta que estou à espera.
Fintando sem dificuldades aquele jogo de palavras, a sombra responde-lhe:
- A ponte. Continua em chamas.
- Apagam-se?
- Controlam-se.
Maria deixou cair a fita que ainda segurava na mão direita. Primeiro fugiu-lhe de três dedos, depois ficou suspensa entre o polegar e o anelar. Enfim, escorregou. Para além de não encontrar o suficiente em alternativas falhadas, também não considerou a resposta da sombra suficientemente boa. Virou(-lhe) as costas e deu sete passos em frente. Cuidadosamente, pegou na bainha do vestido que lhe dava imediatamente acima dos joelhos e segurou-a firmemente enquanto se sentava. Esticou as pernas e em silêncio cruzou duas histórias. Fechou os olhos e deixou-se cair para trás, o corpo sobre a relva pautada de pequenas e simples flores selvagens que se iam tentando erguer sozinhas no seio do verde, mostrando serem maiores que a sua fragilidade aparente. O rio corria tranquilo à sua frente, a anular o rubor que se sentou nas suas redondas bochechas. Maria desejou que enquanto ali estivesse se escrevesse uma história em que pontes não fossem precisas. Fantasiou sobre corações reparados e círculos que moldam a perfeição.
Enquanto ela imaginava um amor que deixou de estar escrito, a sombra observava-a encantada. O cabelo parecia-lhe ter caído de forma incomparável sobre o chão, com os seus tons dourados a provocarem o sol. A beleza pendia-lhe da pele, tendo vindo a crescer desde o seu interior. O sorriso, mesmo alterado em intensidade, era de deixar qualquer alguém rendido. O vestido dava-lhe um ar romântico, uma ingenuidade que de falsa não tinha nem uma unha negra. As mãos, essas estavam soltas, prontas a serem pegadas por outras.
- Faz-me um desenho. – pediu-lhe a Maria.
No entanto, não obteve resposta. Não abriu os olhos, não se levantou e nem sequer deu sinais de se importar com o desprezo que lhe foi dado. Em vez disso, continuou a criar imagens na sua mente.
Silenciosamente, a sombra pegou na fita e fitou-a com um olhar de quem esperava que essa mesma fita lhe desse uma ideia de como aceder ao pedido que tinha sido feito.
- Eu gosto de estar aqui. – ouviu-se pela voz da Maria.
A sombra pegou numa pedra e atirou-a ao rio.
- Algum dia te disse como é bom estar aqui?
E ao mesmo tempo, a sombra respondia-lhe com um desenho. Sendo a resposta invisível aos olhos fechados da Maria, ela levou apenas o tempo necessário para ter a certeza do que queria dizer e depois prosseguiu:
- Contigo.
E engoliu em seco.
A sombra esforçava-se por desenhar. Amachucava a fita, deitava-a no chão, mexia-lhe com os dedos e esticava-a para de novo voltar a enrodilhá-la entre as palmas das mãos. Maria não se inibiu com a indiferença que julgava estar-lhe a ser dirigida e continuou a falar, ignorando o leve som que os pés da sombra inventavam ao bater contra as pedrinhas do chão:
- Há um laço que eu desconheço e que me liga ao rio desde sempre. Não sei se é a cor azul que me acalma, se é a tranquilidade com que o meu coração vive neste sítio. Aqui descansamos: o meu coração e eu.
Fez uma pausa para ver se percebia com que armas tinha conseguido aprender a separar as coisas.
- Por aqui encontro marcas na relva e eu finjo que são as nossas. A minha e a tua, antes de te chamares Fantasma. Quando me sentava ao teu colo. Lembras-te? Mas não é só isso. Não me lembro de alguma vez não ter sido feliz aqui. Mesmo nos dias em que eu vinha ter contigo e não dávamos as mãos porque precisávamos de coordenar o coração e a razão, eu nunca deixei de ser feliz. Até nesses momentos eu era feliz. Mesmo quando baixavas os olhos por não conseguires olhar mais para mim do que para o chão, até aí eu era feliz. Coberta de medo, sorria por estares aqui, levantava os teus olhos à altura dos meus, olhava-te e dava-te um beijo. E eu era feliz. Era feliz assim.
Fez outra pausa. Desta vez deixou secar a boca; aquela palavra exigia demasiado. Recuperou e respirou fundo.
- És feliz? – escapou-lhe a derradeira pergunta.
E depois desta frase os seus lábios colaram-se. Maria desconfiou que ficaria ali o resto do dia, incapaz que estava de acreditar que fez de facto aquela pergunta. Retraiu-se, parecia estar a ser engolida, a desaparecer por dentro e a deixar uma frágil casca do lado de fora.
Durante o tempo que ela tinha passado a falar, a sombra notou os seus joelhos a tremer. No primeiro instante em que o nervosismo a atacou, desfez o desenho sem nexo que tinha feito e desenhou, em poucos segundos, algo que parecia estar arrependida de não se ter lembrado antes.
- Acabei – encorajou-se a sombra a contar.
Um arrepio assolou o corpo da Maria desde a cabeça até à ponta dos pés. Devagarinho, abriu os olhos e com o receio que se apertou à volta do corpo, enrolou os lábios um no outro.
- Leva o tempo que quiseres. – tranquilizou-a a sombra, conhecendo fraquezas com que já tinha lidado. A sombra adivinhou os mares em que Maria tinha mergulhado. Pela voz dela conheceu os cantos às histórias que ela imaginava enquanto lhe falava e no seu silêncio, deslindou a dor em que ela pairava.
Nisto, a Maria sentou-se. Flectiu as pernas, juntou-as e apoiou a face nos joelhos. Com os dois braços enrolou o corpo num abraço que de outra forma não conseguiria ter. Ficou nesta posição a olhar o rio, fingindo estar sozinha, ignorando uma presença que nunca deixou de estar presente. Fechou os olhos uma última vez e quando a curiosidade se tornou maior do que ela, levantou-se. Ajeitou o cabelo, fazendo-o cair sobre os ombros para esconder a postura de quem não sabe o que esperar. Por fim, virou-se de frente para a sombra. A sombra estava de pé e olhou-a nos olhos, desviando depois o olhar para a forma que a fita de cetim desenhava no chão. Ela seguiu-lhe o olhar. No chão, a fita de cetim desdobrava-se num círculo perfeito. Ou melhor, quase; e a descrição admite este «quase» porque o círculo não estava fechado.
Não está completo, cresceram-lhe imediatamente as palavras inaudíveis. Um círculo não é um círculo se não estiver fechado. Por mais perfeita que seja a curva. E continuou a falar só para si porque não acreditava que a sombra tivesse outras intenções.
- Deste sete passos.
Maria ergueu a cabeça do chão por culpa da inércia. As palavras da sombra causaram uma diferença demasiado grande entre a velocidade a que a história se vinha a desenrolar e a velocidade a que as coisas começaram a acontecer naquela tarde. Ela tinha de facto dado sete passos, contou-os, mas não sabia que a sombra estava atenta ao ponto de os contar também. Estaria a sombra interessada na sua vida? Por não lhe pertencer a resposta a perguntas como estas, Maria não entendeu onde queria a sombra chegar. Já a sombra, essa avançou com a conversa que tinha começado:
- Deste sete passos quando te afastaste de mim. Sabes o que mede o sete?
A pergunta transformou-se numa retórica.
- O sete mede a renovação. Até a totalidade é expressa por esse número.
Ela não pronunciou uma única palavra, optou por deixar a sombra conduzir o assunto.
- Tu vives à procura de uma renovação que espelhas em pretérito perfeito.
O silêncio dela não se interrompeu, mas era visível que estava incomodada.
- Encontras-te aqui?
- É só uma fita. – começou a Maria, adoptando uma postura que pertenceu à sombra durante tempo demais – É uma fita de cetim que criou um círculo que não quiseste ter tempo de aperfeiçoar.
- Não é só uma fita de cetim. Nem sequer tive a intenção de te representar a ti aqui.
A Maria deu um passo atrás.
- Não é a falta de vontade, a falta de tempo nem sequer a falta de imaginação – A sombra estava a falar de forma tão rápida que nem se conseguiu aperceber de que afastava a Maria. Apontou para o desenho no chão e dirigiu-se a ela com uma pergunta – Não me reconheces aqui?
- A ti?
- Sim.
Maria tentou conjugar a impossibilidade com a esperança. Eram duas coisas que tinha deixado de conseguir articular num momento que vive no passado e após estas palavras continuou a ser incapaz de as medir, mas de uma forma diferente.
- A minha vida: é um círculo, ou quase. É a totalidade incompleta. - admitiu finalmente a sombra.
Aos olhos dela, a sombra começou a ser vestida por cores que já tinha perdido.
- Entendi – confidenciou a sombra, aliviada por ter encontrado um momento em que o receio deixou que ela dissesse numa parca palavra tudo quanto sentia dentro de si à tempo suficiente para ter a certeza de que sabia o que queria.
As cores, que já tinham evoluído do preto e branco para tons sépia, menos dolorosos mas ainda envelhecidos, estavam agora a aventurar-se em espectros coloridos, dos quais Maria já nem se recordava. Corajosa, Maria retirou uma fita que tinha sobre o seu vestido na linha da cintura, desfez o nó do laço que a rematava e desapertou-o. Deu um passo em frente e parou, ele sempre a observá-la. Depois de ter parado deu mais sete passos, os mesmos sete que ele tinha mencionado. Aproximou-se do chão e colocou a fita do seu vestido sobre o círculo que ele desenhara, prestando atenção à forma que ele criou e cobrindo o espaço que ele deixou em branco.
Sim, agora podia dizer-se que estava ali um círculo. Ela olhou para ele com o coração aos pulos e com medo da sua reacção. A resposta ao cruzar de olhares foi um sorriso como ela ainda não (lhe) tinha conhecido. A «ele». Um narrador não se devia arriscar a adivinhar a história, mas a sombra deixou de o ser e transformou-se «nele». O «ele» que já tinha sido.
- Pela mão dos dois.
O círculo, que tinha deixado de o ser e só se mostrava uma forma aberta, voltou a sê-lo pela mão dos dois, como ele acabara de dizer. Até aqui ela não quis iludir-se. Queria, mas não se permitiu. Precisava de ter a certeza que ele queria, precisava que ele lho dissesse a ela, sem intenções escondidas atrás de jogos de letras. Nas palavras dela, pintou-se o desenho dos seus últimos tempos: tempos de espera, de silêncio, de falta de definição. Feliz, ela apenas conseguiu formular uma frase:
- Porque demoraste tanto?

domingo, 6 de junho de 2010

Oh!
Não é magnífica?


Jeff Buckley - Lover, you should've come over



Para quem prefere o mundo do Jazz, há esta versão maravilhosa do Jamie Cullum: