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domingo, 26 de setembro de 2010

Objecto amoroso não é a grande unidade de sentido e significação

"O nosso mundo tão pragmático é também paradoxal. Só por isso se entende que o seu âmago de motivações seja múltiplo e rode em torno, umas vezes de dimensões que consideramos materialistas ou funcionais, outras de um romantismo serôdio e inexplicável.
As histórias de amor fazem parte integrante desse núcleo central de razões que nos fazem mexer. Por mais escamoteadas que sejam na sua real importância, por mais periféricas que queiramos que sejam, o facto incontornável é que a maioria das pessoas, em algum momento da sua vida, faz do seu objeto amoroso a grande unidade de sentido e significação.
É sobre uma relação amorosa que, frequentemente, assentam opções e escolhas de todo o tipo que depois se transformam em trajetórias de vida.
Mas embora as histórias de amor se assemelhem e mobilizem impulsos, emoções e sentimentos idênticos em diferentes pessoas, o facto é que crescem, se desenvolvem e morrem com diferentes estruturas relacionais.
Nuns casos, a ausência, a distância física, que normalmente faz pensar também na distância emocional, de acordo com o velho princípio do "longe da vista, longe do coração", parece ajudar a idealização e facilitar que o Outro permaneça no tempo como um objeto de desejo.
Noutros casos, pelo contrário, a história constrói-se sobre uma presença permanente, uma partilha constante, uma proximidade física que não imagina nem suporta qualquer espécie de ausência.
A presença e a ausência, que por si mesmas não definem sentimentos nem justificam qualidades de afetos, acabam por ser estilos relacionais que, com a continuidade, se transformam em verdadeiros estilos de vida.
Quem se habitua a ter um objeto de amor em fundo sem, contudo, contaminar o quotidiano de pequenas adaptações e cedências, resiste o mais que pode à proximidade que sente como invasão do seu espaço.
Quem faz da partilha e da comunhão de todos os momentos uma forma de amor, não entende o interesse e a ligação de uma relação sem presença.
Às vezes, as histórias de amor fazem-se de ausências, outras vezes, pelo contrário, de presenças. Apenas porque sim."

- ISABEL LEAL, crónica "Longe da Vista"

terça-feira, 7 de setembro de 2010

«haverá dias quentes de sol»

"Para lá de um conceito, muito em moda, mas tortuoso e escorregadio, que nos faz ir atrás de mais umas receitas que, se fôssemos capazes de replicar devidamente, mudando atitudes, estilos de vida, companheiros de percurso, condições de vida e, sobretudo, formas de ser e de sentir, nos colocariam numa senda de bem-estar imparável, essa coisa da felicidade tem muito que se lhe diga.

A primeira, e a mais incontornável, é que cada um de nós chama felicidade a sensações distintas. Se para alguns é assimilada a paz, tranquilidade, facilidade de gestão do quotidiano, algum despojamento que atualiza e ocidentaliza milenares perspetivas zen, outros veem nela, pelo contrário, um estado de espírito intenso e apaixonado que, por vezes, desce sobre as suas cabeças, assim como se fora uma versão modernizada do espírito santo.

Mas a maioria das pessoas, por mero bom senso, diga-se, tem da felicidade uma visão dualista e polarizada, avaliando o seu grau de felicidade pela infelicidade que sabem ou julgam ser possível.

E a infelicidade absoluta, que se associa ao vazio afetivo e à miséria humana, reside, na ideação íntima de cada um de nós, em situações-limite de perda de sentido e de significação.

A infelicidade sem consolo existe quando não se ama e não se é amado, quando não se valoriza o que se tem e o que se conhece, quando se mergulha na depressão que empobrece a visibilidade e a projeção no futuro.

Desse modo arrevesado, consegue-se que o conceito de felicidade mais circulante seja sempre positivo e até elevado. Ainda que frustrados em aspetos particulares, inseguros ou queixosos; ainda que tristonhos, zangados ou receosos, a maioria de nós tem a convicção de que, mesmo que de momento seja inverno, haverá dias quentes de sol, encontros luminosos, gargalhadas frescas, beijos calorosos, gestos redentores.

O que nos faz feliz, talvez estranhamente, é saber que a felicidade e a infelicidade são estados de espírito que, ainda que influenciados pelo que acontece à volta, refletem o que de mais profundo conseguimos elaborar, atualizar e transformar em nós.

O que nos faz felizes, mesmo quando estamos infelizes, é acreditar que amanhã será outro dia."

- ISABEL LEAL, crónica "O Que Nos Faz Feliz", 2 Set 2010

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

"Desfasamento"

"(...) Às vezes, muito lentamente, vamos interiorizando que o normal evoluir das pessoas e dos acontecimentos determina que tenhamos percebido uma coisa quando já não era necessária ou que valorizemos o que já estamos a perder. De muitas formas, acedemos, assim, à noção de desfasamento.

O desfasamento que existe entre nós e nós, nós e os outros, nós e o mundo que nos rodeia e, também, entre o mundo que aprendemos que devia ser e o mundo tal qual é.

Para qualquer lado que olhemos, parece que a realidade se desdobra, que a dupla direccionalidade é um fenómeno genérico, que um imenso estrabismo divergente aflige o mundo, as pessoas e os acontecimentos.

De algum modo sabemos que não podem existir situações acabadinhas e arrumadas, leis que se apliquem justamente a toda a gente, princípios que não conheçam excepção. Ainda que não apreciemos, sabemos que a distância entre o que somos capazes de imaginar e o que podemos executar, o que somos capazes de pensar e o que temos recursos para pôr em marcha, é sempre demasiada. Sendo dado que não temos acesso a toda a realidade e que precisamos de mapas mentais que a tipifiquem, simplifiquem e nos ajudem nos trajectos que temos de fazer, precisamos mesmo de direcções seguras e bem marcadas. Aguentamos, de facto, uma certa quantidade de desfasamento. Mas é preciso que alguém saiba a dosagem certa antes que a desfragmentação aconteça. Essa, não tem retorno, sentido ou tino."

ISABEL LEAL, in Crónica "Desfasamento"

quinta-feira, 22 de julho de 2010

"A Codificação do Tempo"

A perceção do fluir dos acontecimentos, os nossos, os dos outros e do próprio mundo, faz-se ancorada no conceito de tempo.
Para quase todos nós, a temporalidade é como que uma linha invisível que tem uma orientação definida.

Curiosamente, a orientação dessa linha, que congrega a sagrada trilogia do passado-presente-futuro, é diferente de pessoa para pessoa.
Se o presente costuma ser o eixo central a partir do qual tudo o resto se organiza, o passado e o futuro são sentidos como ocupando topografias diferentes.

Para uns, o passado é o que está para trás e o futuro o que está para a frente, como se a tal linha imaginária fosse uma espécie de estrada em que se caminha.
Para outros, o passado e o futuro têm uma configuração bem diferente e são "vistos" como limites laterais, algo idêntico a pratos de uma balança sempre em equilíbrio instável.

Estas diferentes formas de codificar mentalmente a temporalidade, para lá de uma curiosidade, são, também, uma forma de nos apercebermos por que é que alguns de nós parecem lidar com facilidade com o que aconteceu e com o que virá a acontecer, ao passo que outros exibem permanentemente uma mistura de recordações e emoções antigas, por vezes à mistura com projeções de um futuro eivado do que foi.

Qualquer destes sistemas, que não escolhemos, mas que se estabeleceram em nós como parte integrante da nossa forma de ver o mundo, tem vantagens e inconvenientes.

Pôr tudo para trás das costas, se tem o benefício de não ter de se acartar vida fora situações desagradáveis, também significa não se valorizar devidamente experiências e aprendizagens que poderiam ser úteis.

Manter passado, presente e futuro ao mesmo nível, por seu turno, se permite uma imensa largueza de emoções, também é verdade que dificulta a escolha mais conveniente e adaptada ao momento atual.

Em qualquer caso, seja qual for a perceção que tenhamos, que, convém que se diga, pode, com trabalho e esforço, ser alterada, vale a pena reforçar a ideia de que as nossas perceções sobre a realidade não são, nunca são, a realidade.


ISABEL LEAL, Crónica "A Codificação do Tempo"

sábado, 3 de julho de 2010

Avançamos vida fora experimentando os mais diversos sentimentos e emoções. [...]
Da maioria dos dias não guardamos memórias. Passam como se não tivessem acontecido, idênticos a tantos outros em que cumprimos tarefas, desempenhamos papéis, mantemos conversas, damos beijos e sorrisos distraídos e nos sentimos automáticos e automatizados, como se a capacidade de ser, pensar e sentir não fosse precisa ou nos tivesse abandonado.

Destes dias, algo pardacentos e com limites desbotados, alguns conseguem dizer que são agradáveis, pela previsibilidade e controlo que sentem, e muitos outros referem, sobretudo, uma sensação de monotonia e enfado.
Mas bons, maus ou assim-assim, os dias que passam parece que evoluem em climas emocionais de fundo que costumam ter mais importância do que os próprios dias.

Em algumas fases da vida parece que os dias decorrem sobre o signo de uma expectativa positiva, de uma quase esperança, que nos faz querer correr no tempo, nos ilumina os percursos e nos vitaliza como se fôssemos grandes consumidores de excitantes. Noutras, pelo contrário, arrastamo-nos, desmoralizados, como se, fizéssemos o que fizéssemos, tivéssemos de perseverar num caminho traçado e afunilado que nos leva, inevitavelmente, para um qualquer lado a que não queremos ir.

Quando nos perguntamos (ou alguém nos pergunta) por que é que estamos tão animados ou tão desanimados, por regra explicamos, com detalhe, sinais e sintomas de boas ou más coisas a eventualmente acontecer, como se dependêssemos absolutamente do que é exterior a nós para modular o nosso humor e os nossos estados de espírito. [...]

Usamos pouco e usamos mal aquilo que deveriam ser os nossos recursos íntimos para a vida de todos os dias, entre eles a capacidade de filtrar acontecimentos e escolhermos o que é importante e nos pode e deve afetar. Que é muito menos do que parece.


ISABEL LEAL, in crónica "Esperança e Desânimo"

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Arte da espera

"Existem artes insuspeitas.
Para lá dos cânones, para lá do que se formalizou designar por arte, encontra-se formas de ser e fazer inesperadas que, pela raridade, pela qualidade única, mas ainda assim reconhecível, nos fazem perceber que abandonámos os terrenos da trivialidade e, de repente, nos confrontamos com qualquer coisa que empolga os sentidos, emociona, e nos remete para uma dimensão estética.
Às vezes, escapando ao que sabemos sobre o belo, reparamos em olhares aflitos, tranquilos ou intensos, em movimentos de mãos que bailam no ar, em frases que ressoam e ficam a pairar depois de ditas, em formas de andar ou mover o corpo que contam histórias ou se insinuam em nós de forma inesperada.
Topei um destes dias com uma arte de que já ouvira falar. Uma arte que Hermann Hess refere, uma e outra vez, com a elegância que o distingue: a arte da espera. [...]"

ISABEL LEAL, in Crónica "Da arte da espera"