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segunda-feira, 14 de junho de 2010

Arte da espera

"Existem artes insuspeitas.
Para lá dos cânones, para lá do que se formalizou designar por arte, encontra-se formas de ser e fazer inesperadas que, pela raridade, pela qualidade única, mas ainda assim reconhecível, nos fazem perceber que abandonámos os terrenos da trivialidade e, de repente, nos confrontamos com qualquer coisa que empolga os sentidos, emociona, e nos remete para uma dimensão estética.
Às vezes, escapando ao que sabemos sobre o belo, reparamos em olhares aflitos, tranquilos ou intensos, em movimentos de mãos que bailam no ar, em frases que ressoam e ficam a pairar depois de ditas, em formas de andar ou mover o corpo que contam histórias ou se insinuam em nós de forma inesperada.
Topei um destes dias com uma arte de que já ouvira falar. Uma arte que Hermann Hess refere, uma e outra vez, com a elegância que o distingue: a arte da espera. [...]"

ISABEL LEAL, in Crónica "Da arte da espera"

domingo, 13 de junho de 2010

(quase) Um círculo depois de uma ponte em chamas

Serpenteia. Presa por uma mão, faz dobras no ar, a correr pelos mesmos sítios que a pressão de ar comanda. Faz a mesma forma que os «S’s». Dá agora ares de uma linha curvilínea. Desenha um «A» sem querer. A realidade aterrou numa fita de cetim que não acredita no fado. Mas o fado escreveu-se nela pelo vento.
Cresceu um arco no céu. Uma sombra! Passou-lhe uma sombra preta de um preto muito muito escuro por baixo. Mesmo reconhecendo-a, Maria quis perguntar-lhe o nome.
- Fantasma – respondeu.
- Estava à tua espera.
- Porquê? Queres que te leve comigo?
- Conheces o caminho?
- Consigo chegar à encruzilhada, até aí não me perco, mas não sei qual o caminho que me leva à ponte.
- Voltaste e ainda não conheces a ponte?
A sombra não sabia com que palavras poderia responder e então calou-se perante a cobardia que lhe estava atravessada na garganta.
- Leva-me lá – pediu-lhe a Maria.
- E se estiver a arder?
- Então sabes. Sempre soubeste.
- Não te posso fazer andar por caminhos em chamas. Não lentamente.
- Mas eu deixei de saber correr.
- Não falo de velocidade, assim nesses termos. Não falo de distâncias e tempo, de quocientes que se calculam um por um e a todos. Não é um quociente igual a esses, fácil. Não são precisas descobrir incógnitas. Não é uma equação, mais depressa seria uma inequação. Não é matemática, só que implica lógica.
- Foste tu que criaste as labaredas?
- Que…
Ela interrompeu a sombra, atrasando a pressa que esperava na resposta.
- As primeiras? Foste tu?
- Eu…
Interrompe-a uma segunda vez:
- Não respondas.
Preferiu não conhecer a resposta, mas logo a seguir pensou que os minutos de conversa difícil pudessem ter mudado um rumo com o qual começava a mostrar sinais de se conformar, de curtos em curtos períodos. Talvez estivesse descrente em si. De qualquer forma, essa descrença nunca foi forte o suficiente para a fazer desligar-se de uma emoção que não crescia em iguais proporções por outros caminhos. Afinal nunca se conformou. A palavra é outra, mas não partilha laços com a conformação e a resignação. Ou as escalas dos sentimentos se tinham alterado e ninguém a avisou, ou então a verdade seria mesmo que todas as alternativas que lhe pareceram possíveis e que ela tomou depois do fim nunca a fizeram sentir que fosse o suficiente e ela vivia insatisfeita, a interrogar-se sobre o «quê?» que faltava em cada possibilidade. Anciosa, Maria preenche o silêncio que ela própria criou:
- A ponte, continua em chamas?
- Estás à espera de uma resposta que conheces.
- Não é de uma resposta que estou à espera.
Fintando sem dificuldades aquele jogo de palavras, a sombra responde-lhe:
- A ponte. Continua em chamas.
- Apagam-se?
- Controlam-se.
Maria deixou cair a fita que ainda segurava na mão direita. Primeiro fugiu-lhe de três dedos, depois ficou suspensa entre o polegar e o anelar. Enfim, escorregou. Para além de não encontrar o suficiente em alternativas falhadas, também não considerou a resposta da sombra suficientemente boa. Virou(-lhe) as costas e deu sete passos em frente. Cuidadosamente, pegou na bainha do vestido que lhe dava imediatamente acima dos joelhos e segurou-a firmemente enquanto se sentava. Esticou as pernas e em silêncio cruzou duas histórias. Fechou os olhos e deixou-se cair para trás, o corpo sobre a relva pautada de pequenas e simples flores selvagens que se iam tentando erguer sozinhas no seio do verde, mostrando serem maiores que a sua fragilidade aparente. O rio corria tranquilo à sua frente, a anular o rubor que se sentou nas suas redondas bochechas. Maria desejou que enquanto ali estivesse se escrevesse uma história em que pontes não fossem precisas. Fantasiou sobre corações reparados e círculos que moldam a perfeição.
Enquanto ela imaginava um amor que deixou de estar escrito, a sombra observava-a encantada. O cabelo parecia-lhe ter caído de forma incomparável sobre o chão, com os seus tons dourados a provocarem o sol. A beleza pendia-lhe da pele, tendo vindo a crescer desde o seu interior. O sorriso, mesmo alterado em intensidade, era de deixar qualquer alguém rendido. O vestido dava-lhe um ar romântico, uma ingenuidade que de falsa não tinha nem uma unha negra. As mãos, essas estavam soltas, prontas a serem pegadas por outras.
- Faz-me um desenho. – pediu-lhe a Maria.
No entanto, não obteve resposta. Não abriu os olhos, não se levantou e nem sequer deu sinais de se importar com o desprezo que lhe foi dado. Em vez disso, continuou a criar imagens na sua mente.
Silenciosamente, a sombra pegou na fita e fitou-a com um olhar de quem esperava que essa mesma fita lhe desse uma ideia de como aceder ao pedido que tinha sido feito.
- Eu gosto de estar aqui. – ouviu-se pela voz da Maria.
A sombra pegou numa pedra e atirou-a ao rio.
- Algum dia te disse como é bom estar aqui?
E ao mesmo tempo, a sombra respondia-lhe com um desenho. Sendo a resposta invisível aos olhos fechados da Maria, ela levou apenas o tempo necessário para ter a certeza do que queria dizer e depois prosseguiu:
- Contigo.
E engoliu em seco.
A sombra esforçava-se por desenhar. Amachucava a fita, deitava-a no chão, mexia-lhe com os dedos e esticava-a para de novo voltar a enrodilhá-la entre as palmas das mãos. Maria não se inibiu com a indiferença que julgava estar-lhe a ser dirigida e continuou a falar, ignorando o leve som que os pés da sombra inventavam ao bater contra as pedrinhas do chão:
- Há um laço que eu desconheço e que me liga ao rio desde sempre. Não sei se é a cor azul que me acalma, se é a tranquilidade com que o meu coração vive neste sítio. Aqui descansamos: o meu coração e eu.
Fez uma pausa para ver se percebia com que armas tinha conseguido aprender a separar as coisas.
- Por aqui encontro marcas na relva e eu finjo que são as nossas. A minha e a tua, antes de te chamares Fantasma. Quando me sentava ao teu colo. Lembras-te? Mas não é só isso. Não me lembro de alguma vez não ter sido feliz aqui. Mesmo nos dias em que eu vinha ter contigo e não dávamos as mãos porque precisávamos de coordenar o coração e a razão, eu nunca deixei de ser feliz. Até nesses momentos eu era feliz. Mesmo quando baixavas os olhos por não conseguires olhar mais para mim do que para o chão, até aí eu era feliz. Coberta de medo, sorria por estares aqui, levantava os teus olhos à altura dos meus, olhava-te e dava-te um beijo. E eu era feliz. Era feliz assim.
Fez outra pausa. Desta vez deixou secar a boca; aquela palavra exigia demasiado. Recuperou e respirou fundo.
- És feliz? – escapou-lhe a derradeira pergunta.
E depois desta frase os seus lábios colaram-se. Maria desconfiou que ficaria ali o resto do dia, incapaz que estava de acreditar que fez de facto aquela pergunta. Retraiu-se, parecia estar a ser engolida, a desaparecer por dentro e a deixar uma frágil casca do lado de fora.
Durante o tempo que ela tinha passado a falar, a sombra notou os seus joelhos a tremer. No primeiro instante em que o nervosismo a atacou, desfez o desenho sem nexo que tinha feito e desenhou, em poucos segundos, algo que parecia estar arrependida de não se ter lembrado antes.
- Acabei – encorajou-se a sombra a contar.
Um arrepio assolou o corpo da Maria desde a cabeça até à ponta dos pés. Devagarinho, abriu os olhos e com o receio que se apertou à volta do corpo, enrolou os lábios um no outro.
- Leva o tempo que quiseres. – tranquilizou-a a sombra, conhecendo fraquezas com que já tinha lidado. A sombra adivinhou os mares em que Maria tinha mergulhado. Pela voz dela conheceu os cantos às histórias que ela imaginava enquanto lhe falava e no seu silêncio, deslindou a dor em que ela pairava.
Nisto, a Maria sentou-se. Flectiu as pernas, juntou-as e apoiou a face nos joelhos. Com os dois braços enrolou o corpo num abraço que de outra forma não conseguiria ter. Ficou nesta posição a olhar o rio, fingindo estar sozinha, ignorando uma presença que nunca deixou de estar presente. Fechou os olhos uma última vez e quando a curiosidade se tornou maior do que ela, levantou-se. Ajeitou o cabelo, fazendo-o cair sobre os ombros para esconder a postura de quem não sabe o que esperar. Por fim, virou-se de frente para a sombra. A sombra estava de pé e olhou-a nos olhos, desviando depois o olhar para a forma que a fita de cetim desenhava no chão. Ela seguiu-lhe o olhar. No chão, a fita de cetim desdobrava-se num círculo perfeito. Ou melhor, quase; e a descrição admite este «quase» porque o círculo não estava fechado.
Não está completo, cresceram-lhe imediatamente as palavras inaudíveis. Um círculo não é um círculo se não estiver fechado. Por mais perfeita que seja a curva. E continuou a falar só para si porque não acreditava que a sombra tivesse outras intenções.
- Deste sete passos.
Maria ergueu a cabeça do chão por culpa da inércia. As palavras da sombra causaram uma diferença demasiado grande entre a velocidade a que a história se vinha a desenrolar e a velocidade a que as coisas começaram a acontecer naquela tarde. Ela tinha de facto dado sete passos, contou-os, mas não sabia que a sombra estava atenta ao ponto de os contar também. Estaria a sombra interessada na sua vida? Por não lhe pertencer a resposta a perguntas como estas, Maria não entendeu onde queria a sombra chegar. Já a sombra, essa avançou com a conversa que tinha começado:
- Deste sete passos quando te afastaste de mim. Sabes o que mede o sete?
A pergunta transformou-se numa retórica.
- O sete mede a renovação. Até a totalidade é expressa por esse número.
Ela não pronunciou uma única palavra, optou por deixar a sombra conduzir o assunto.
- Tu vives à procura de uma renovação que espelhas em pretérito perfeito.
O silêncio dela não se interrompeu, mas era visível que estava incomodada.
- Encontras-te aqui?
- É só uma fita. – começou a Maria, adoptando uma postura que pertenceu à sombra durante tempo demais – É uma fita de cetim que criou um círculo que não quiseste ter tempo de aperfeiçoar.
- Não é só uma fita de cetim. Nem sequer tive a intenção de te representar a ti aqui.
A Maria deu um passo atrás.
- Não é a falta de vontade, a falta de tempo nem sequer a falta de imaginação – A sombra estava a falar de forma tão rápida que nem se conseguiu aperceber de que afastava a Maria. Apontou para o desenho no chão e dirigiu-se a ela com uma pergunta – Não me reconheces aqui?
- A ti?
- Sim.
Maria tentou conjugar a impossibilidade com a esperança. Eram duas coisas que tinha deixado de conseguir articular num momento que vive no passado e após estas palavras continuou a ser incapaz de as medir, mas de uma forma diferente.
- A minha vida: é um círculo, ou quase. É a totalidade incompleta. - admitiu finalmente a sombra.
Aos olhos dela, a sombra começou a ser vestida por cores que já tinha perdido.
- Entendi – confidenciou a sombra, aliviada por ter encontrado um momento em que o receio deixou que ela dissesse numa parca palavra tudo quanto sentia dentro de si à tempo suficiente para ter a certeza de que sabia o que queria.
As cores, que já tinham evoluído do preto e branco para tons sépia, menos dolorosos mas ainda envelhecidos, estavam agora a aventurar-se em espectros coloridos, dos quais Maria já nem se recordava. Corajosa, Maria retirou uma fita que tinha sobre o seu vestido na linha da cintura, desfez o nó do laço que a rematava e desapertou-o. Deu um passo em frente e parou, ele sempre a observá-la. Depois de ter parado deu mais sete passos, os mesmos sete que ele tinha mencionado. Aproximou-se do chão e colocou a fita do seu vestido sobre o círculo que ele desenhara, prestando atenção à forma que ele criou e cobrindo o espaço que ele deixou em branco.
Sim, agora podia dizer-se que estava ali um círculo. Ela olhou para ele com o coração aos pulos e com medo da sua reacção. A resposta ao cruzar de olhares foi um sorriso como ela ainda não (lhe) tinha conhecido. A «ele». Um narrador não se devia arriscar a adivinhar a história, mas a sombra deixou de o ser e transformou-se «nele». O «ele» que já tinha sido.
- Pela mão dos dois.
O círculo, que tinha deixado de o ser e só se mostrava uma forma aberta, voltou a sê-lo pela mão dos dois, como ele acabara de dizer. Até aqui ela não quis iludir-se. Queria, mas não se permitiu. Precisava de ter a certeza que ele queria, precisava que ele lho dissesse a ela, sem intenções escondidas atrás de jogos de letras. Nas palavras dela, pintou-se o desenho dos seus últimos tempos: tempos de espera, de silêncio, de falta de definição. Feliz, ela apenas conseguiu formular uma frase:
- Porque demoraste tanto?