domingo, 31 de outubro de 2010

(...)
Come on get love,
Come on and try,
Come on now what are you waiting for?

Be There
,
HOWIE DAY

GUNS N' ROSES - Patience

One, two, one, two, three, four

Shed a tear 'cause I'm missing you
I'm still alright to smile
Girl, I think about you every day now
Was a time when I wasn't sure
But you set my mind at easy
There is no doubt you're in my heart now

Said, woman, take it slow
And it'll work itself out fine
All we need is just a little patience
Said, sugar, make it slow
And we'll come together fine
All we need is just a little patience (Patience)

I sit here on the stairs
'Cause I'd rather be alone
If I can't have you right now I'll wait, dear
Sometimes I get so tense
But I can't speed up the time
But you know, love, there's one more thing to consider

Said, woman, take it slow
And things will be just fine
You and I'll just use a little patience
Said, sugar, take the time
'Cause the lights are shining bright
You and I've got what it takes to make it

We won't fake it
Oh, I'll never break it
'Cause I can't take it

Little patience, yeah
Need a little patience, yeah
Just a little patience, yeah
Some more patience, yeah

I've been walking the streets at night
Just trying to get it right (Need some patience, yeah)
It's hard to see with so many around
You know, I don't like being stuck in the crowd (Could use some patience, yeah)

And the streets don't change but, baby, the names
I ain't got time for the game (Gotta have some patience, yeah)
'Cause I need you, yeah
Yeah, but I need you (All it takes is patience, yeah)

Oh, I need you (Just a little patience)
Oh, I need you (Is all you need)
Oh, this time

sábado, 30 de outubro de 2010

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Encontros e desencontros

Ainda que tenhas baixado o remo e me tenhas deixado no nosso barco à deriva, continuo à espera que a tua voz regresse a acompanhar a ondulação que te trará até mim. Neste barco, o do passado, presente mas nunca o do futuro, não posso deixar de te avistar, mesmo que não estejas por perto. Porque sinto a tua vontade, o que resta de mim em ti.
Os homens que se disseram vir para me salvar tinham jeito de piratas. Queriam antes assaltar o amor que ainda tenho, roubar-me aquilo em que ainda acredito. Eles poderiam até oferecer-me a mais bonita dança sob as estrelas ou encontrar o pôr-do-sol mais quente dos trópicos, mas não saberiam que quando deixasse cair a cabeça contra o ombro deles, estaria a pedir que me dessem a mão. Não há quem entenda aquilo de que somos feitos. Não nos conhecem a lógica nem a dor. Os outros não nos vêem como os guerreiros da nossa causa para eles perdida. Perdida no tempo, no espaço. E por muito pouco, nem tu vês.
Porque é que não me vieste buscar?
Com as luzes a acenderem-se sob o pano de fundo que é a noite, emergimos nós e os nossos desejos podres de tristeza. E o vazio prossegue a sua caminhada dentro de cada um de nós. Quando é que me tornei diferente dos demais embriagados de amor? Vejo-os cair noutras vontades, a perderem-se no caminho da esperança e deixarem-se ser encontrados. E eu? Nada. Ninguém parece saber onde quero chegar com cada palavra, onde quero e não quero ir. Só tu. Para sempre tu.
E com a maior das ironias dirijo-me a ti: mas para quê retornares quando já sabes que teríamos um barco feliz? Porque não partir numa busca pelo que desconheces?
Embalada no maior dos amores, cega, pergunto-me se não farás essa busca para que voltes indefinidamente até ao local onde nos deixaste. Vais regressando uma e outra vez, esses diferentes regressos camuflados pelo teu querer. Diz-me: será porque admiras a forma como a tristeza se transforma nos nossos encontros e desencontros?




DAVID FONSECA - U Know Who I Am

terça-feira, 26 de outubro de 2010


COLDPLAY - See You Soon

So you lost your trust,
And you never should have, you never should have,
But don't break your back,
If you ever see this,
Don't answer that.

In a bullet proof vest,
With the windows all closed,
I'll be doing my best,
I'll see you soon,
In a telescope lens,
And when all you want is friends,
I'll see you soon.

So they came for you,
They came snapping at your heels,
They come snapping at you heels,
But don't break your back,
If you ever see this,
Don't answer that.

In a bullet proof vest,
With the windows all closed,
I'll be doing my best,
I'll see you soon,
In a telescope lens,
And when all you want is friends,
I'll see you soon,
I'll see you soon.

And oh you lost your trust,
And oh you lost your trust,
And oh don't lose your trust,
And oh you lost your trust.

domingo, 24 de outubro de 2010

I want to live where soul meets body
And let the sun wrap its arms around me
And bathe my skin in water cool and cleansing
And feel, feel what it's like to be new
Cause in my head there's a Greyhound station
Where I send my thoughts to far-off destinations
So they may have a chance of finding a place where they're far more suited than here

And I cannot guess what we'll discover
When we turn the dirt with our palms cupped like shovels
But I know our filthy hands can wash one another's
And not one speck will remain

And I do believe it's true that there are roads left in both of our shoes
But if the silence takes you then I hope it takes me too
So Brown Eyes I'll hold you near cause you're the only song I want to hear
A melody softly soaring through my atmosphere

Where soul meets body
Where soul meets body
Where soul meets body

And I do believe it's true
That there are roads left in both of our shoes
If the silence takes you then I hope it takes me too
So Brown Eyes I'll hold you near cause you're the only song I want to hear
A melody softly soaring through my atmosphere
A melody softly soaring through my atmosphere
A melody softly soaring through my atmosphere
A melody softly soaring through my atmosphere

Soul Meets Body
,
DEATH CAB FOR CUTIE

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Marilyn Monroe

À medida que leio o livro tenho cada vez mais medo de uma vida como a dela. Porquê? Pela ância que Marilyn tinha por não viver.
Deixo aqui algumas palavras que hoje me agradaram:

"Não me ouça: olhe para mim. As palavras não significam nada. Olhe-me nos olhos. Os olhos são a melhor forma de se aproximar. As palavras são ar. Em compensação, cada olhar é um largo braço de água. Uma corrente de água que nos liga uns aos outros. Como uma via fluvial aberta à navegação entre aqueles que se olham, como o canal do Suez (...). Olhando-se nos olhos é o mais perto que duas pessoas podem estar (...)."

- RAFAEL REIG
, in "Autobiografia de Marilyn Monroe"

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Was it loneliness that brought you here
Broken and weak
Was it tiredness that made you sleep
Have you lost your will to speak
Was the earth spinning round
Were you falling through the ground
As the world came tumbling down
You prayed to God what have we done

Free me from these chains I need to change my way
Heal these broken wings I need to fly far away, far away, far away

Was it emptiness that made you weep
No more secrets to keep
Was it bitterness that gave you time
To forgive your sins
Was the earth spinning round
Were you falling through the ground
As the world came tumbling down
You prayed to God what have we done

Free me from these chains I need to change my way
Heal these broken wings I need to fly far away
Free me from these thoughts long forgotten down below
Take these angel’s words give them life to carry on, carry on, carry on
Free me from these chains…

Spinning
,
ZERO 7

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Será isto cruel?

Se me vão deixar aqui sozinha, então temo os dias das noites que vou passar em claro. Vou fazer festas tendo-me a mim como convidada. Vou brindar à solidão e mesmo assim vou continuar presa às mesmas coisas a que sempre estive!
Será isto cruel? Está bem patente a minha maior feição, a de eterna saudosista...

Feelings

A questão é: eles deviam ir para o sítio, mas nunca foram...

domingo, 17 de outubro de 2010

«Não me basto»

É preciso que você venha nesse exato momento. Abandone os antes. Chame do que quiser. Mas venha. Quero dividir meus erros, loucuras, beijos, chocolates… Não nego. Tenho um grande medo de ser sozinho. Não sou pedaço. Mas não me basto.

— CAIO FERNANDO ABREU

sábado, 16 de outubro de 2010

«After the Storm»

...
And there will come a time, you’ll see, with no more tears.
And love will not break your heart, but dismiss your fears.
Get over your hill and see what you find there,
With grace in your heart and flowers in your hair.
...

After the Storm,
MUMFORD AND SONS

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

«Sou eu»

Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobresselente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.
Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.
E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconsequente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro eléctrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ia sentar em cima.
E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.
Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.
Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —
A impressão de pão com manteiga e brinquedos
De um grande sossego sem Jardins de Proserpina,
De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,
Num ver chover com som lá fora
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.
Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.
Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.
Sou eu mesmo, que remédio!…

- ÁLVARO DE CAMPOS

«O primeiro dia»

"O que o acordou foi o silêncio. Primeiro, o do despertador que não tocou à hora combinada todas as manhãs. Depois, o de outra respiração, que devia ouvir e não ouvia. Estendeu a mão para o quente do outro lado da cama e encontrou o frio. Apalpou e encontrou vazio. Então, sim, despertou completamente.

Um prenúncio de tragédia desceu por ele abaixo, como um arrepio. O que acabara de se lembrar era que não acordara só por acaso ou por acidente: aquele era o primeiro dia, a primeira manhã da sua separação — o primeiro de quantos dias? — em que acordaria sempre sozinho, com metade da cama fria, metade do ar por respirar.

Era Abril, sábado e chovia. Sentado na cama, lembrou-se das instruções que dera a si mesmo para aquela manhã: fazer peito forte à desgraça. Nada é inteiramente bom, mas nada é inteiramente mau - pensou. Posso ler à noite até me apetecer sem me mandarem apagar a luz, posso dormir atravessado na cama, posso-me livrar daquele rol de cobertores com o qual ela me esmagava, fizesse sol, chuva ou frio, porque as mulheres são mais friorentas que eu sei lá, posso usar a casa-de-banho todo o tempo que quiser, posso espalhar as roupas, os jornais e os papéis pelo quarto à vontade e até - oh, suprema liberdade — posso fumar à noite na cama.

Levantou-se para se olhar ao espelho da casa-de-banho. Sorriu à sua própria imagem, ensaiou-a calma, tranquila, confiante. Imaginou mentalmente o texto que poderia redigir sobre si mesmo para a secção de anúncios pessoais do jornal: “Divorciado, 40 anos, bom aspecto, licenciado, rendimento médio-alto, casa própria e espaçosa, desportos, ar livre, terno e com sentido de humor”. Mulheres compatíveis? Deus do céu, dezenas delas! Sou um partidão — concluiu para o espelho.

Calmo, tranquilo e confiante, passou aos outros aposentos da casa para dar uma vista de olhos ao resultado da partilha dos móveis, aliás feita sem grandes problemas, como é próprio de gente civilizada. Por alto, entre o living, o hall, o escritório, a cozinha, o quarto de casal e as duas casas-de-banho, estimou nuns setecentos contos o preço da reposição das coisas em falta. Mais metade dos livros e dos CD's, quase todas as fotografias dos últimos dez anos das suas vidas e algumas outras coisas cujo verdadeiro valor era o vazio que encontrava se olhasse para o lugar onde elas costumavam estar.

“Até agora vou-me aguentando”, considerou ele. Entre perdas e danos e a certeza adquirida de que nada dura para sempre, restavam-lhe várias razões e objectos e sentimentos para olhar em frente sem um sobressalto.

Enquanto fazia, com um prazer insuspeitado, o seu primeiro pequeno-almoço de homem só, passou à fase seguinte do que chamara o “plano de sobrevivência”: desfolhar a agenda de telefones em busca de amigos igualmente sós com quem fazer “programas de homens” ou de antigas namoradas, que se tinham separado ultimamente ou outras que achava acessíveis mas que nunca tivera a coragem e a oportunidade de aproximar. A primeira desilusão foi com os amigos: de A a Z, realizou que só tinha dois amigos sem mulher e, para agravar as coisas, com nenhum deles lhe apetecia sair e entrar numa de “anda daí e mostra-me lá como é o mundo lá fora”. Quanto às mulheres que julgava sortables, sempre eram cinco, mas o resultado foi quase patético. Duas já não moravam naqueles telefones, outra tinha-se casado entretanto, e o marido estava ao lado a ouvir a conversa, o que o deixou completamente idiota a inventar pretextos absurdos para o telefonema. Do número da quarta atendeu uma criancinha e ele desligou e foi só na última da lista que finalmente teve sorte: sim, a Joana morava ali, era ela própria ao telefone. Não, não estava casada nem, pelo que, esforçadamente, percebeu, tinha namorado. Sim, ok, por que não irem jantar logo, para falar do projecto que ele tinha e onde ela poderia caber. “Ah, a tua mulher não vem? Separados? Não, não sabia. Recente? Pois, essas coisas são tão chatas, mas ainda bem que reages e tens projectos novos e tudo! Ok, às oito e meia vens-me buscar”. Ele teria desligado quase em êxtase, não fosse a frase final dela, à despedida, que o deixou verdadeiramente abalado. “Olha, vais-me achar uma grande diferença. A idade não perdoa a ninguém, não é?”

Enfim, sempre era um date. O primeiro, certamente, de uma longa lista. O que interessa se for um flop — achas que ias encontrar uma mulher super logo ao virar da esquina? É preciso é entrar no circuito, pá, começar a sair, a ser visto, fazer com que as pessoas saibam que estás disponível. O resto vem por arrasto.

Passeou-se pela casa, pensativo, fumando o primeiro cigarro do dia. De repente lembrou-se que ainda não tinha visto o quarto do filho. A cama e a escrivaninha tinham ido, assim como praticamente todos os brinquedos. Sobrava um boneco de peluche, três ou quatro carrinhos semi-partidos, uns legos e um quadro para fazer desenhos, com os respectivos marcadores, pousados, à espera de uma mão de criança. A mesa-de-cabeceira ficara e parecia absurda no meio do quarto, sem a cama nem os outros móveis, com um retrato dele e do filho numa praia do Algarve, sorrindo, abraçados um ao outro. Sem saber porquê, sentou-se no chão encostado à parede, muito devagar, a olhar para a fotografia. Duas grossas lágrimas escorregaram-lhe pela cara abaixo e caíram na madeira do chão, entre as pernas. Foi só então que ele percebeu que estava a chorar."

- MIGUEL SOUSA TAVARES
, in "Não Te Deixarei Morrer, David Crockett"

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Dia inumerável

Insignificante. Foi esta a primeira palavra que escolhi, mas depois pu-la de lado. Na verdade, poderia apelidar de Justificado o que não queria saber. Qual a utilidade de saber efectivamente que dia era aquele? Para quê chamá-lo pelo número? Para poder lembrar-me daqui a um, dois, cinco meses, um ano do aniversário de uma ocasião que não quis ver crescer aos meus pés? Em concreto, não a vi sequer. Desviei a minha atenção para a altura do prédio da frente, e nunca me parecera tão grande. Eu ali, pequenina, invisivelmente anã, ou mais do que isso, a vulgar formiga a mingar perigosamente nas margens da sua dor. Vi carros, tantos carros. Passaram por nós pessoas, umas de mãos dadas. Sozinhas, poucas. Não olhei para ti uma única vez. Deixei-te na frente, a comandar, e sentei-me mais abaixo, onde deixasses já de fazer parte do meu horizonte que, sabia eu, ia forçosamente deixar de te incluir. Sei que juntei as mãos enquanto falavas as tuas palavras pausadas. Num gesto tão banal, concentrava as forças que me faltavam. Enquanto debitavas o nosso fado, eu desfazia as mãos que às vezes me davas, enviando-lhes a dor que me ofereceste. E nisto, tinha o corpo rígido, pesado, sofrido. A minha estrutura podia ter construído ali uma cratera, não fosses tu estar lá a segurar-me. Pouco mais eu dava sinais de estar viva, à parte o pescoço que se orientava para o lado oposto ao que ocupavas. Contraí nessa posição todas as células desta casca, congelei-me inteira para poder depois dizer-te que ainda estava viva. E tu falavas, a medo. Era quase um sussurrar, um leve som que davas às frases curtas, sucintas, para dizeres depressa o que achavas que conseguias. O meu corpo começou a tremelicar, logo depois a tremer. Eram sinais de quem não aguentava as tuas profecias, calculadas com base em distâncias que ainda agora não meço como sendo grandes. Elas, as que nos afastam, não são mais do que um dado adquirido e muito pouca importância se lhes deveria atribuir para além dessa. Oh menino, não vês que o meu corpo congelado se derrete? Não vês os sulcos que as lágrimas causam logo abaixo dos olhos que não consigo que te vejam?
Algum tempo depois saíste do teu sítio e ficaste mais perto. E o lado que eu reservava para te evitar foi o que ocupaste. Viste-me, já depois de teres a cara caída e em direcção ao chão, os braços desleixados sobre os joelhos, sim, isso eu reparei em ti. Viste as minhas lágrimas, tão desconhecidas por ti ainda, e encostaste-me ao teu calor, num gesto de quem lamentava o que nos estava a acontecer.
Eu lamento. Choro a morte do que existe entre nós, o que o vento ainda não nos roubou mas que com o tempo se sumirá.

«Rifa-se um coração»

"Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste
em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que na realidade está um
pouco usado, meio calejado, muito machucado
e que teima em alimentar sonhos e, cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente que nunca desiste
de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado coração
que acha que Tim Maia
estava certo quando escreveu…
“…não quero dinheiro, eu quero amor sincero,
é isso que eu espero…”.
Um idealista…Um verdadeiro sonhador…
Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece, e mantém sempre viva a
esperança de ser feliz, sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional
sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando
relações e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste em cometer
sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome
de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posições
arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado.
Tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional
que abre sorrisos tão largos que quase dá
pra engolir as orelhas, mas que
também arranca lágrimas
e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado,
ou mesmo utilizado
por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado indicado apenas para
quem quer viver intensamente
contra indicado para os que apenas pretendem
passar pela vida matando o tempo,
defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente
que se mostra sem armaduras
e deixa louco o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater
ouvirá o seu usuário dizer
para São Pedro na hora da prestação de contas:
“O Senhor pode conferir. Eu fiz tudo certo,
só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal
quando ouvi este louco coração de criança
que insiste em não endurecer e,
se recusa a envelhecer”
Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por
outro que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate
tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconseqüente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo,
mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que ainda
não foi adotado, provavelmente, por se recusar
a cultivar ares selvagens ou racionais,
por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio,
sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento
até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que,
mesmo estando fora do mercado,
faz questão de não se modernizar,
mas vez por outra,
constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence
seu usuário a publicar seus segredos
e a ter a petulância de se aventurar como poeta."

- CLARICE LISPECTOR

domingo, 10 de outubro de 2010

Ontem

Devolve-me o ontem. Por favor, devolve-me o ontem.

«Diz-me a verdade mesmo que mintas»

"Jura que vamos sentarmo-nos lá fora no jardim, o frio a lamber-nos o corpo, eu aninho-me em ti e ouvimos as estrelas e olhamos o silêncio cortado pelo vento nas folhas dos pinheiros.
Diz-me a verdade, mesmo que mintas.
Promete-me que no futuro, estaremos sós os dois, aqui nesta casa, as nossas impressões digitais coladas pelas paredes, fechamos todas as luzes e apenas as labaredas da lareira vão inundar a casa, tons quentes no frio da noite mágica.
Diz-me a verdade, ainda que me mintas.
Diz-me que vamos voltar atrás quando andarmos para a frente, e de novo saborear os nossos corpos, já lá vai tanto tempo que já não tenho o sal da tua pele na minha memória. Não sei se vamos retomar à paixão de há tantos anos atrás ou à acalmia do amor sereno mas tanto me faz, o que quero mesmo a voltar atrás nesse futuro e quando entrar a porta do quarto saborear de antemão o prazer das tuas mãos a tecerem rendas na minha pele.
Diz-me a verdade, nem que me tenhas que mentir, e pintar o céu de outra cor qualquer, e dar-me asas para voar, que eu não aguento mais, aqui sufoco, aqui morro todos os dias mais um pouco.
Diz-me a verdade mesmo que me mintas e eu levar-te-ei nos meus braços quando levantar voo daqui sem sairmos os dois do sofá, da carpete, da cama.
Mas diz-me a verdade. Diz-me toda a verdade coberta pelas mais doces mentiras, essas promessas de futuro, de acalmia, de passeios na praia quando o frio aperta e as gaivotas baixam ao areal.
Diz-me a verdade e promete-me uma noite de sono. Mente e diz-me que vou dormir como um bebé virgem de medos, sem estes terrores nocturnos, sem este acordar diário a teu lado na cama, e contudo, tão só como o primeiro ser do universo.
Diz-me a verdade que não me importo que seja mentira. Já não faz diferença alguma, na verdade o que te peço é que me mintas, mas desta vez não me dês uma das tuas mentiras que me fazem chorar, que me fazem sangrar e me roubam dias de vida.
Não.
Diz-me a verdade da mentira que vamos viver. Diz-me depressa que eu não sei quanto tempo mais consigo respirar aqui!"

- LUISA CASTEL-BRANCO, "Diz-me a verdade mesmo que mintas"

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Verdades por Rodrigo Guedes de Carvalho

Descoberto por uma das pessoas que mais estimo e a quem melhor quero. Para ti, mando-te um abraço sentido enrolado no vento que hoje não adormece! *

"Sabes perfeitamente que não devias voltar. E no entanto. Ainda há pouco, à entrada da vila que quase falhaste por estar tão diferente, uns sinais que cá não estavam, uma rotunda pequenina que entretanto nasceu, vegetação seca no meio, sempre se poupa água. Ainda há pouco, ao entrares na vila, ao reentrares no que foste um dia, veio, sabe-se lá de onde, nunca soubeste, um aroma que te guia. Parece-te sempre que é como aquelas nuvenzinhas dos desenhos animados, que se transformam em braço e mão, e te fazem sinais com os dedos, a chamar-te. Quiseste um dia escrever sobre esse cheiro, que não é bem mar nem sal, que sabe um pouco a vento, que traz calor agarrado. Havia um odor que te sabe a infância, mas sabias lá como dizê-lo: e assim aprendeste a coisa mais importante quando se escreve, que há coisas que simplesmente não têm palavras para elas. Aqui estás, na hesitação leve e disfarçada (não sabes para onde ir) na esperança de arrefeceres uma dor que te queima. Quiseste regressar a um sítio onde foste feliz, falhou-te a outra tentativa. Quando o desgosto, mais um, mas este tão brutal, te levou a partir para longe. Viajaste, calcoreaste toda a Terra: alguém te disse (uma data de gente, aliás) que te faria bem, se é que ainda se pode falar de fazer bem quando dói tanto. Mas que fosses. Que precisavas de desanuviar a cabeça, conhecer outras pessoas, que a solução será afastares-te o mais possível dos cheiros e cores e sons que te doem. Que andares distraída seria um bálsamo. Uma cura. Fizeste o suposto, cumpriste o que te aconselharam. E em cada um desses sítios de fim de mundo tentaste deixar por lá a mágoa, afastares-te dela, aproveitar quando ela se distraísse, largares a correr em sentido contrário. A esperança de voltares mais leve. Querias cumprimentar as pessoas, a data delas que te aconselhou. Dizer-lhes obrigado, foi de facto uma solução para a cura, já não me dói. E assim aprendes a não crer cegamente em todos os conselhos. As pessoas não fazem por mal, mas as pessoas julgam sempre que sabem muitas coisas. E julgam sobretudo que somos todos iguais, dá menos trabalho, olha-me só a balbúrdia confusa que seria reparar que somos todos únicos. E por isso não, a dor não ficou lá nesses países. Regressa intacta, contigo. Tentas então aqui, aonde não vinhas há tanto tempo, o sítio onde foste tão feliz e pode ser, pode bem ser, que te deixe adormecer na sua paz de memória. É isso que anseias, o coração a bater mais depressa, mas o sítio, a começar pela rotunda, mais uns edifícios que também cá não estavam, já não é o mesmo. Sim, eu sei, parece-te o mesmo, ainda há coisas que permanecem, o paredão antes da areia, a barraca onde se alugavam os guardasóis para todo o Verão. Tu estás cá de novo, mas já não és tu, vinhas à procura de uma criança com outra vida à volta. Já cá não estás. E a dor, reparas, ainda lá. Nem para o lado, na imensidão do mundo, nem para trás, o passado é só isso. Só tens caminho para a frente."

- RODRIGO GUEDES DE CARVALHO

Qual a área de estragos que a bomba deixará por aqui?

Nunca te dediquei muitas palavras, mas bem sei que as mereces. Não me perguntes a razão de o não ter feito, não sei ao certo. O que sei, e me dói, é que talvez exista um fundo de independência por aí entretido. Eu, tão dependente e às vezes tão desligada daqueles a que me apego. Porque sim, apeguei-me.
Tudo o que te posso dizer é que a bomba caiu causando mais danos do que eu esperava. Para dizer a verdade, não te via como alguém capaz de premeditar uma guerra. Eu imaginava-te do outro lado, um guerreiro a empilhar sacos de areia enquanto sofria um ataque.
Mas a bomba caiu mesmo. Mas logo agora, depois de manifestos que não a faziam adivinhar? Não esperava que as reviravoltas se dessem sem verdadeiros indícios, ataques previsíveis à tranquilidade.
De que vale o medo agora que já se vê o fogo, o fumo? De que serve mais moderação, agora que tudo temo ter perdido?
Há em mim um mal estar maior do que tu. Se quando voltar a levantar o olhar já não estiveres aí, prometes que de quando em quando podes voltar até mim?

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O meu Outono

Estarei louca? Desnorteada, asseguro. Louca, ainda equaciono. Quanto de mim me falta encontrar na podridão do que deixei envelhecer no meu Outono? As folhas que encontro na rua envergonham-me. Na minha estação os passos não variam, não caem mais de mim. Não se renasce, não há espaço para inovações pessoais que cedo perdem o brilho. Existem perguntas, uma catapulta que as lança com o tempo mínimo de recarga.
Onde está a mudança gradual das cores? Para onde escorregou a vontade peremptória que ao vento segredei?
O mundo não me aparece com outro tom que não o sépia. Envelheci sem me aperceber e agora lamento os instantes que deixei a secar ao lado do meu rendado vestido branco. Olho para trás e continuo sem saber quando os apanhei. Talvez ainda estejam lá, mas diz a minha consciência, num tom indignado, que não, que já lhes peguei pela mão. Onde está a verdade quando o meu próprio eu acentua o nevoeiro que me rodeia?

domingo, 3 de outubro de 2010

"Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância - irmãos siameses que não estão pegados."

-BERNARDO SOARES
,
in "Livro do Desassossego"

sábado, 2 de outubro de 2010



She's a rainbow and she loves the peaceful life
Knows I'll go crazy if I don't go crazy tonight
There's a part of me in the chaos that's quiet
And there's a part of you that wants me to riot

Everybody needs to cry or needs to spit
Every sweet tooth needs just a little hit
Every beauty needs to go out with an idiot
How can you stand next to the truth and not see it?

A change of heart comes slow

It's not a hill, it's a mountain
As you start out the climb
Do you believe me, or are you doubting
We're gonna make it all the way to the light
But I know I'll go crazy if I don't go crazy tonight

Every generation gets a chance to change the world
Pity the nation that won't listen to your boys and girls
Cos the sweetest melody is the one we haven't heard
Is it true that perfect love drives out all fear?
The right to appear ridiculous is something I hold dear
Oh, but a change of heart comes slow

It's not a hill, it's a mountain
As you start out the climb
Listen for me, I'll be shouting
We're gonna make it all the way to the light
But you know I'll go crazy if I don't go crazy tonight

Baby, baby, baby, I know I'm not alone
Baby, baby, baby, I know I'm not alone

It's not a hill, it's a mountain
As we start out the climb
Listen for me, I'll be shouting
Shouting to the darkness, squeeze out sparks of light

You know we'll go crazy
You know we'll go crazy
You know we'll go crazy if we don't go crazy tonight

Oh oh
Slowly now
Oh oh

I'll Go Crazy If I Don't Go Crazy Tonight
,
U2
Ele passou por mim e sorriu,
e a chuva parou de cair,
o meu bairro feio tornou-se perfeito,
e o monte de entulho, um jardim.

O charco inquinado voltou a ser lago,
e o peixe ao contrário virou.
Do esgoto empestado saiu perfumado
um rio de nenúfares em flor.

Sou a mariposa bela e airosa,
que pinta o mundo de cor de rosa,
eu sou um delírio do amor.

Sei que a chuva é grossa, que entope a fossa,
que o amor é curto e deixa mossa,
mas quero voar, por favor!

No metro, enlatados, corpos apertados
suspiram ao ver-me entrar.
Sem pressas que há tempo,
dá gosto o momento,
e tudo mais pode esperar.

O puto do cão com seu acordeão,
põe toda a gente a dançar,
e baila o ladrão,
com o polícia p'la mão,
esvoaçam confetis no ar.

Sou a mariposa bela e airosa,
que pinta o mundo de cor de rosa,
eu sou um delírio do amor.

Sei que a chuva é grossa, que entope a fossa,
que o amor é curto e deixa mossa,
mas quero voar, por favor!

Há portas abertas e ruas cobertas
de enfeites de festas sem fim,
e por todo o lado, ouvido e dançado,
o fado é cantado a rir.

E aqueles que vejo, que abraço e que beijo,
falam já meio a sonhar,
se o mundo deu nisto e bastou um sorriso,
o que será se ele me falar.

Sou a mariposa bela e airosa,
que pinta o mundo de cor de rosa,
eu sou um delírio do amor.

Sei que a chuva é grossa, que entope a fossa,
que o amor é curto e deixa mossa,
mas quero voar, por favor!

Sou a mariposa bela e airosa,
que pinta o mundo de cor de rosa,
eu sou um delírio do amor.

Sei que a chuva é grossa, que entope a fossa,
que o amor é curto e deixa mossa,
mas quero voar, por favor!

Passou Por Mim e Sorriu
,
DEOLINDA

«Tem de se arrumar muito depressa»

"Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos?"

- HERBERTO HELDER,
in "Os Passos em Volta"
My dove
You came to the window as a spark
And left as a raven after dark
Was I the tourist in your heart?
Now love
I tried to be native in your land
But you dismissed me careless hand

For I’ve held paradise
But lost sight of it now

And time
Don’t be a stranger with a drop
Fill in the spaces
Set up shop
I need a fix
Fast forward clocks

All I want is to hold you to me now
All I want is forever to allow

Paradise
,
ROYAL WOOD

U2: Um ano de espera!

É amanhã, é amanhã, é amanhã! É amanhã :D