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sábado, 29 de outubro de 2011

«Estás preparada?»


"(Prepara-te bem porque daqui a pouco)
e por mais que quisesses tentar já nem forças para tentar, simplesmente
Não te lembras
Não te lembras
Podes continuar a circular, tocar nas coisas, avaliar o peso dos objectos,
olhar mil vezes fotografias que te mostram, dizem-te nomes que não reconheces, simplesmente
Não reconheces
(Estás preparada?)"

- RODRIGO GUEDES DE CARVALHO, in "Mulher em Branco"

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

um Eu depois de um Tu


"Eu vinha povoado de supostos fantasmas
Trazia uma ou outra vingança por consumar
Nesses dias em que desocupado
De grandes desgraças traições anseios
Eu vinha apenas vindo quando te atravessaste
Intransponível
Nesse caminho que fazia só fazendo
Pouco alerta mudo impávido
Quando olhava sem bem olhar via só o que queria
Mesmo no que ver me custava acreditar
E foi quando o teu sorriso
Esse meio sorriso gioconda
Se tornou primeiro aos olhos depois ao tacto
Intransponível
E o caminho que fazia só indo desocupado
Esbarrou no que queríamos e vejo hoje
Mais que só olhar
Que o teu sorriso
Gioconda
Meio sorriso
É uma desgraça impávida
Límpido como não soubera haver uma boca
Como dizer líquida
Quase líquida
No pouco que lhe podemos saber
Meio sorriso permanente imutável
Que penso que é por nos amares
E por veres para além do que eu
Despovoado
Já sem grandes vinganças por consumar
Desvanecido
Quase líquido também
Que nos amares que nos amarmos
Poderá quem sabe matar anseios receios
De traições fantasmas
Serena certeza que líquida
Quase meia boca
Me faz o caminho só na tua direcção
Onde pareces saber que esperas
Serena
Gioconda
Que vamos durar sem mesmo sabermos
Dadas as mãos as mãos dadas
Intransponíveis
Serão duas aos olhos ao tacto parecem menos
E são tudo o que temos
E são tudo"

- RODRIGO GUEDES DE CARVALHO, in a Casa Quieta, Lisboa, Dom Quixote, 2005

sábado, 4 de junho de 2011

Mais Rodrigo, já

"Levantou-se de repente. Como se de um pesadelo. A cabeça pesada, os membros torpes, as articulações ferrugentas da insónia. E o dia que nunca mais irrompia pelos espaços regulares da persiana, desenhos milimétricos na escultura rígida da janela.
Este não é o meu quarto e estou farto de hotéis. Uma mulher respira devagar por trás de si. Amo-a? Mexe-se ligeiramente, muda de posição, murmura palavras fugidas de sonhos desfeitos, volta a adormecer, a boca ligeiramente mais aberta, a mesma respiração aquática. Que faço eu aqui?
Agma, no pescoço, na cara, as mãos em concha, duas três quatro vezes, lavar-me, começar a limpar-se por ali, como se restassem nas pálpebras e nos lábios pedaços apodrecidos da goma da resignação. Sentiu, enquanto os olhos fechados se lembravam das corridas de bicicleta entre a Apúlia e ofir, e a boca reaprendia a pouco e pouco a arquitectura difícil dos sorrisos abertos da infância, a mulher que se remexia no seu sono inquieto, Falas tanto de noite, Dizes tanta coisa que não percebo, que me apetece logo inventar aí, nesse espaço a que definitivamente não pertenço a cova escondida do entendimento que definitivamente não logramos alcançar, um raspar mais brusco dos lençóis, um bocejo enorme, claro, a faísca de um isqueiro, claro, a voz que já não pertence ao sonho clara.
- Porque é que acordaste tão cedo?
Porque é que me deitei tão tarde, e contigo, uma vez mais contigo, um corpo à deriva, a jangada da tua sedução, há quanto tempo?
- Podes responder-me quando falo contigo?
Cala-te, estou a redescobrir o prazer de fazer a barba, a lâmina a viajar os contornos do queixo, a alternância agradável da água quente e da água fria, estou bem, estou quase limpo. Cala-te.
- Estava cheio de calor, dormi mal.
- Porra, eu dormi como uma lontra...
E um novo bocejo (porque é que os conto?), imaginou-lhe de costas o hábito de prender o cigarro entre o anelar e o médio, a cinza que se começa a inclinar, a maneira distraída de coçar a nuca. Ainda bem. Que dormiste bem, quero dizer. Voltou ao quarto acalmando a irritação da cara com palmadas sábias de after shave, num gesto que aprendeu com os cow-boys da infância (quando eu for grande e fizer a barba), reparou na própria sombra atapetada na alcatifa pela radiação falsa da luz da casa de banho, adivinhou os contornos das coxas nuas, dos seios em desmazelo agora que a chama do isqueiro se juntava aos primeiros raios de sol que espreitavam pelas feridas da persiana, adivinhou a própria boca sem nada para dizer dali a pouco, sem qualquer palavra na profunda arrecadação da linguagem que conseguisse traduzir o que lhe ia por dentro, realmente por dentro, doridamente por dentro, sem nada para dizer ou responder.
- Então já não deixas crescer a barba?
Tomar a iniciativa de dizer quando lhe pareceu de repente que eram horas de partir, de abalar, de romper de vez juntamente com a luminosidade teimosa da manhã, um salto sem regresso, uma viagem sem retorno possível, atirou a toalha para cima da cama, abriu os pesados cortinados de veludo. Ei, não abras essa merda, olhou finalmente a mulher com os olhos engessados da decisão, se calhar sorriu, se calhar deu-lhe gozo feri-la no seu torpor de bicho nocturno, abriu as persianas, a janela, a porta da varanda, abriu tudo o que havia para abrir, deixar sair o cheiro a mofo, a podre, continuar a limpar-se.
- Vou-me embora.
- Foda-se, acordaste mesmo de cu para o ar. Ao menos dá-me tempo de me vestir.
Não percebeste nada, continuas a não perceber nada, não é do hotel que me vou embora, não é deste quarto excessivamente luxuoso, excessivamente impessoal como tu me pareces nesta manhã, como tu finalmente pareces, vou-me embora de mim, repara, olha para mim, não acredito que não mo leias nos olhos, na transpiração aflita das mãos, não acredito que não notes, que não te apercebas e, no entanto, não vou nada embora, sei-o, vou permanecer para sempre grávido dos dias que não me atrevo a relembrar, a fazer voltar, às tantas, merda, não conseguirei nunca ir-me embora, nunca partir como se inventasse nesse momento eternamente adiado a alegria refrescante da chegada, anda, veste-te lá, vou descendo, vou pagando a noite que não tive, e foi como se ao dirigir-se ao empregado alto e curvado da recepção que o cumprimentou numa subserviência pegajosa, se dirigisse de facto à mulher que naquele preciso momento (adivinhava-o) compunha em frente ao espelho da casa de banho o caos escuro dos cabelos, indignada por ter sido selvaticamente arrancada a conforto celular do sono da manhã, resmungando impropérios com a boca cerzida que (de certeza aperta os ganchos trazidos das toilettes da adolescência, tirou a carteira do bolso do blusão (Fica-me mal porque continuo a usá-lo?), olhou novamente o recibo que a cegonha lhe estendia, e pensou numa soma elaborada pela mulher, a multiplicação imparável de uma solidão sem remédio.
Ouviu a campainha do elevador que aterrava na recepção, pressentiu sem olhar a mulher a empurrar a porta, o cabelo apanhado na nuca com um elástico furioso, os longilíneos óculos escuros repletos de acordes estridentes sofregamente engolidos numa maratona rockeira do Pavilhão Infante de Sagres, deixou uma nota mais pequena de gorjeta, pôs também os óculos, o tique obrigou-o a verificar a fralda da camisa, e atravessou a porta de vidro com a sensação de ter rachado algo que deveria ter tido a coragem de quebrar."


- RODRIGO GUEDES DE CARVALHO, in "Daqui a Nada", 1992, Contexto

terça-feira, 31 de maio de 2011

"A Casa Quieta"

"Não te vou procurar. E vim para casa sabendo que pela primeira vez não o faria, interrogando-me como se faz isto, repara a impossibilidade, aprender a fazer como não se faz. É então isto a morte. (...) Não te podendo procurar porque és agora nada, a morte são uns olhos de cão aos pés do teu lugar da cama, a olhar para mim, a olhar para onde te via. (...) A tua morte matou-nos. (...) Levanto-me. Sento-me. Ergo-me. Caminho. Dou a volta. Regresso. Os passos do cão atrás de mim. As unhas dele no soalho. Poderia talvez dizer o teu nome. Se eu fosse poeta acreditaria que isso havia de te ressuscitar. Dizer o teu nome. Pensar no que sempre ouvimos dizer. Que as pessoas não morrem desde que pensemos nelas. Desde que as mantenhamos junto a nós, desde que digamos os seus nomes, o que lhes garantia existirem e serem únicas e não serem mais ninguém. (...) É então isto a morte. Não estares lá e ao mesmo tempo não estares em sítio nenhum, na casa de banho, na sala, a desentortar a torneira do pátio, a regar as plantas, no supermercado, nem sequer na vizinha, não foste visitar a tua prima afastada doente, não estás à espera de um táxi na avenida, não estás Mariana."

- RODRIGO GUEDES DE CARVALHO, in "A Casa Quieta"

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Verdades por Rodrigo Guedes de Carvalho

Descoberto por uma das pessoas que mais estimo e a quem melhor quero. Para ti, mando-te um abraço sentido enrolado no vento que hoje não adormece! *

"Sabes perfeitamente que não devias voltar. E no entanto. Ainda há pouco, à entrada da vila que quase falhaste por estar tão diferente, uns sinais que cá não estavam, uma rotunda pequenina que entretanto nasceu, vegetação seca no meio, sempre se poupa água. Ainda há pouco, ao entrares na vila, ao reentrares no que foste um dia, veio, sabe-se lá de onde, nunca soubeste, um aroma que te guia. Parece-te sempre que é como aquelas nuvenzinhas dos desenhos animados, que se transformam em braço e mão, e te fazem sinais com os dedos, a chamar-te. Quiseste um dia escrever sobre esse cheiro, que não é bem mar nem sal, que sabe um pouco a vento, que traz calor agarrado. Havia um odor que te sabe a infância, mas sabias lá como dizê-lo: e assim aprendeste a coisa mais importante quando se escreve, que há coisas que simplesmente não têm palavras para elas. Aqui estás, na hesitação leve e disfarçada (não sabes para onde ir) na esperança de arrefeceres uma dor que te queima. Quiseste regressar a um sítio onde foste feliz, falhou-te a outra tentativa. Quando o desgosto, mais um, mas este tão brutal, te levou a partir para longe. Viajaste, calcoreaste toda a Terra: alguém te disse (uma data de gente, aliás) que te faria bem, se é que ainda se pode falar de fazer bem quando dói tanto. Mas que fosses. Que precisavas de desanuviar a cabeça, conhecer outras pessoas, que a solução será afastares-te o mais possível dos cheiros e cores e sons que te doem. Que andares distraída seria um bálsamo. Uma cura. Fizeste o suposto, cumpriste o que te aconselharam. E em cada um desses sítios de fim de mundo tentaste deixar por lá a mágoa, afastares-te dela, aproveitar quando ela se distraísse, largares a correr em sentido contrário. A esperança de voltares mais leve. Querias cumprimentar as pessoas, a data delas que te aconselhou. Dizer-lhes obrigado, foi de facto uma solução para a cura, já não me dói. E assim aprendes a não crer cegamente em todos os conselhos. As pessoas não fazem por mal, mas as pessoas julgam sempre que sabem muitas coisas. E julgam sobretudo que somos todos iguais, dá menos trabalho, olha-me só a balbúrdia confusa que seria reparar que somos todos únicos. E por isso não, a dor não ficou lá nesses países. Regressa intacta, contigo. Tentas então aqui, aonde não vinhas há tanto tempo, o sítio onde foste tão feliz e pode ser, pode bem ser, que te deixe adormecer na sua paz de memória. É isso que anseias, o coração a bater mais depressa, mas o sítio, a começar pela rotunda, mais uns edifícios que também cá não estavam, já não é o mesmo. Sim, eu sei, parece-te o mesmo, ainda há coisas que permanecem, o paredão antes da areia, a barraca onde se alugavam os guardasóis para todo o Verão. Tu estás cá de novo, mas já não és tu, vinhas à procura de uma criança com outra vida à volta. Já cá não estás. E a dor, reparas, ainda lá. Nem para o lado, na imensidão do mundo, nem para trás, o passado é só isso. Só tens caminho para a frente."

- RODRIGO GUEDES DE CARVALHO