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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O meu Outono

Estarei louca? Desnorteada, asseguro. Louca, ainda equaciono. Quanto de mim me falta encontrar na podridão do que deixei envelhecer no meu Outono? As folhas que encontro na rua envergonham-me. Na minha estação os passos não variam, não caem mais de mim. Não se renasce, não há espaço para inovações pessoais que cedo perdem o brilho. Existem perguntas, uma catapulta que as lança com o tempo mínimo de recarga.
Onde está a mudança gradual das cores? Para onde escorregou a vontade peremptória que ao vento segredei?
O mundo não me aparece com outro tom que não o sépia. Envelheci sem me aperceber e agora lamento os instantes que deixei a secar ao lado do meu rendado vestido branco. Olho para trás e continuo sem saber quando os apanhei. Talvez ainda estejam lá, mas diz a minha consciência, num tom indignado, que não, que já lhes peguei pela mão. Onde está a verdade quando o meu próprio eu acentua o nevoeiro que me rodeia?

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

"Nunca aqui e agora"

"E se a vida não for isto?
E se o que estou a viver agora for apenas um sonho, um pesadelo, uma mescla disto e de tudo o mais?
E se eu for uma pedra, uma árvore ou uma mulher sentada na ombreira duma porta qualquer, os olhos perdidos no fio do horizonte, os lábios gretados e o rosto tão marcado como um tecido velho e rasgado?
A mulher olha sem ver. E tanto pode ter na sua frente um deserto árido e áspero, como uma outra porta mesmo encostada ao rosto, sem lhe deixar sequer estender as pernas.
Não tem idade e sonha dia e noite com a minha vida e por isso mesmo vive aparvalhada, sem perceber o que se passa, ao que veio e o que vai ser dela.
Se isto não for realmente a vida, então assim eu compreendo esta sensação permanente, este mal-estar que dói dentro de mim, este atordoado na minha cabeça, com tantas vozes a falarem ao mesmo tempo, tanta gente que eu não conheço, tantos sítios que vejo e que não posso saber porque nunca lá estive.
Eu estou aqui e agora mas não estou nunca aqui e agora.
Metade de mim ficou presa no passado e a outra metade anda perdida no futuro. No futuro da mulher sem idade agachada na soleira da porta a olhar o nada.
Mas nunca estou a viver o hoje.
E é terrível! É tão triste não saber saborear aquilo que vem com os dias, o sol, as trovadas secas e a música da chuva.
É tão triste este viver sem viver e estar sempre com um pé no que foi e outro no que podia vir a ser.
Às vezes, já nem é uma tristeza, é antes um vazio que gela os ossos, gela tudo o que me rodeia onde quer que esteja porque é como se eu trouxesse comigo o vazio do Universo, o buraco negro do Cosmos.

A mulher que se calhar sou eu, sentada na soleira da porta, com a saia a comer o pó da terra, não tem olhos, afinal.
Tem dois buracos negros e em vez de lábios tem uma prega caída, uma em baixo, uma em cima.
Foram os bichos que lhe devoraram as carnes, de tanto estar queda e imóvel, tomaram-na por morta, por uma pedra ou uma árvore.
"

Luísa Castel-Branco


É assombrosa a forma como até as palavras mais tristes rimam de forma tão perfeita. E são terríveis os dias em que estas mesmas palavras rimam comigo.