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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O meu Outono

Estarei louca? Desnorteada, asseguro. Louca, ainda equaciono. Quanto de mim me falta encontrar na podridão do que deixei envelhecer no meu Outono? As folhas que encontro na rua envergonham-me. Na minha estação os passos não variam, não caem mais de mim. Não se renasce, não há espaço para inovações pessoais que cedo perdem o brilho. Existem perguntas, uma catapulta que as lança com o tempo mínimo de recarga.
Onde está a mudança gradual das cores? Para onde escorregou a vontade peremptória que ao vento segredei?
O mundo não me aparece com outro tom que não o sépia. Envelheci sem me aperceber e agora lamento os instantes que deixei a secar ao lado do meu rendado vestido branco. Olho para trás e continuo sem saber quando os apanhei. Talvez ainda estejam lá, mas diz a minha consciência, num tom indignado, que não, que já lhes peguei pela mão. Onde está a verdade quando o meu próprio eu acentua o nevoeiro que me rodeia?

terça-feira, 31 de agosto de 2010

E se me bastar?

Perdi a fé no que finjo que tenho, que de grosso modo se entende que tenho mesmo. Ao olhos dos outros o que se vê é o que existe...
Secalhar basto-me. Secalhar. É o que vou descobrir.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

O toque da escrita num toque de mim

Sou de mim,
das minhas palavras,
das minhas dores sentadas ao sol.
Sou dos dias em que falo comigo,
das horas em que escrevo
com o vento a marcar o passo das folhas.
É assim a minha vida:
da cor de um sonho,
como um vidro fosco que
permite a transparência
mas não a oferece.
Sou um projecto
que preciso de concretizar,
uma folha solta do caderno.
Seria eterna se me deixassem.
O meu eu nasce no fervilhar das palavras
quando me sento sozinha,
no canto do dia, da vida.
Deixo que elas expludam
alegres, eufóricas,
furiosas, indignadas,
perplexas, desbocadas.
Deixo-as à minha superfície.
Depois,
retiro-as da pele,
passo-as para o papel
e descanso.
Descanso de mim e leio-me
como se lesse outro.
Vou contando pela noite, em voz alta,
uma história que bem conheço e
aprendo por mim um olhar diferente
a uma figura como a minha.
Passo pelas cicatrizes,
por marcas do tempo que o tempo
insiste em mostrar-me.
Ensino-me.
E é uma experiência de mim para mim,
uma descoberta por que espero todos os dias.
Por isso, tenho a escrita como parte de mim.
E enquanto as horas passam eu olho-me.
Olho-me.
E olho-me.
Sento-me em frente ao espelho e
pergunto em que fendas cabem mais palavras.
Onde terei que procurar espaço para as escrever?
De tanta pele que descrevi
já quase me sinto nua.
Liberto-me das máscaras,
expulso as contenções e
vejo-me mais pura,
sem os traços que ao de leve se traçam
durante a tentativa.
Não espero que me conheçam
nem tenho a pretensão de me dar a conhecer.
Eu sou esta.
Sou eu com as minhas palavras
e sou eu com poucos.
A minha essência não foge,
esconde-se em pedaços que carecem de afinidade.
Existo no meu olhar denunciador
sem se cansar.
E no encostar de duas pálpebras
apaga-se a luz e sorrio.
É neste aconchego de
um abraço que me dou
que eu me sinto inteira e peço mais.
Passo um pé sobre o que não me faz falta
e com a conquista de um equilíbrio
levanto o outro e levo-o
para esse lado da margem.
Sou uma alma dançante,
com o desejo de ver a felicidade
em todos os movimentos do mundo.
Sou uma faminta de vida,
a saltar de nuvem em nuvem
atrás de um sol que numa tarde
(mais do que uma)
e no silêncio da solidão
quase deixou de brilhar.
Mas o sol ainda aclara o céu!
O céu...
Sabes de que cor é o céu?
Sabes de cor todas as saias que ele tem?
Quando olho para ele
encanto-me com as milhares de formas que cria.
A metamorfose do azul,
da noite estrelada,
do algodão branco
que no branco não se esgota.
As estações vivem lá
e os meus sonhos também.
Gostava de viver lá,
de edificar uma cidade de nuvens
e observar a vida.
Mas não,
o trago agridoce do dia consegue apaixonar-me cada vez mais:
ver o voo dos outros,
o sorriso espontâneo,
as crianças a correr pra encaixar num abraço.
E ao colo trago o meu dia bom
- ou menos do que isso -
para lhe fazer perguntas durante a noite.
Deito-me,
encolho as pernas,
coloco as mãos de baixo da face e ouço-o.
Às tantas viro-me,
desprendo as mãos e fixo o olhar no tecto
como se estivesse lá fora
a olhar as estrelas.
Então rio-me!
E quando rio fujo com os olhos do tecto
porque deixa de ser a noite a embalar-me.
Outras noites deixo-me ir presa a mim,
a agarrar o dia para o poder tranquilizar com a noite.
Deixo que essa noite me espelhe,
espelho moldado pelas minhas frases.
Outras vezes,
ao som do jazz,
recosto-me nos episódios da vida,
quebro a ordem do calafrio
e por entre as pestanas decido
com que luz deixo que as coisas se pintem.
Deleito-me com a melodia,
com a música a controlar
o bater do coração,
a voz a acalentar com delicadeza
a frieza do ritmo.
Inclino a cabeça.
Inclino-me.
Entro em momentos
que não tocam as palavras
e não se deixam limitar.
Como eu.
Como agora,
no escassear da escrita
em que estou a sentir-me tão eu
que deixo de saber descrever
por que letras me podem conhecer.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Quanto tempo o meu tempo tem?

Fundida com as correntes de som das maracas de areia que escorrega dentro desse instrumento de madeira, assim me encontro. Os grãos escorregam sem pretensão, mas... Fugir, pensamos todos.
Um xilofone (nome tão pouco poético para um instrumento harmonioso!) toca. Ouve-se uma nota de quando em quando para orientar a hora de partida. Pena, às vezes as últimas areias não têm tempo.
Numa ampulheta espera-se até ao último segundo para mudar a direcção do enredo. Sabe-se sempre quando vai acabar o tempo real que ainda temos. O problema é que passamos a ter a percepção de que controlamos o tempo, porque o conhecemos. Nas maracas marca-se um tempo diferente do tempo que dizemos ser o tempo real. Porque não o é. O nosso tempo real não se presta a medidas básicas de relógio. Presta-se a mim, a ti, a todos. As maracas que eu me imagino a agitar, não se agitariam tanto como a incredulidade perante a minha falta de ritmo. Digo eu que a percussão é para pessoas diferentes de mim, aquelas que sabem medir o tempo.
No tempo psicológico, o ponteiro não segue leis físicas, obedece-nos. Ou serei só eu a obedecer-lhe a ele? Há regras que eu lhe imponho, outras que... O girar dos ponteiros persegue-me nas voltas rectas dessa esfera que não conhece obstáculos. O meu tempo é a minha sombra. E é longo, sempre mais longo.
Quando eu deixo de conhecer o tempo e me vejo incapaz de o controlar, embarco numa dúvida que hipoteca os meus desejos mais racionais. Pergunto frequentemente, sem obter resposta, pela medida do tempo que se esconde por encruzilhadas que claramente não domino. Nem sei se será por falta de vontade ou por recusa.
Será que é o tempo que se mascara de artifícios matemáticos? Nunca foi boa com algoritmos.
Se o meu tempo se misturasse com esse tempo universal, condensar-se-iam num só que seria perfeito. Mas e se aí eu deixava de ser eu? A minha identidade podia vir a ficar desfeita entre o fuso de dois ou mais países! O jet-lag ia querer atrasar a minha visão, já se si lenta, da vida. Já para não falar das horas a mais e as horas a menos que mudam o tempo real e que, com a minha tamanha sorte, me iam trazer reviravoltas neste marca-passo pessoal.
Se for possivel combinar uma hora de partida para o meu tempo e o tempo do mundo, então o meu relógio está estragado. Ou será o do mundo?