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sábado, 27 de novembro de 2010

Catarina Furtado, "Violência Sobre As Mulheres"

Devo confessar que andava curiosíssima para ler esta edição do Jornal Metro e ontem, quando passava os olhos por estas e outras palavras que nele estão manchadas de dor e sede de mudança, doeu-me a consciência. Há tanto por fazer, tanto onde se pode ajudar, tantas mulheres e crianças à espera que lhes digam que sim, que têm o direito de falar, de escolher, de denunciar. Por isso mesmo, comprometi-me a colocar aqui todos os textos que foram publicados naquela edição acerca do tema, em jeito de alertar os que conseguir para o problema. Este, o primeiro, é escrito por uma mulher cujo trabalho é verdadeiramente notório. Falo de Catarina Furtado, a Embaixadora De Boa Vontade Do Fundo Das Nações Unidas Para A População. São as palavras dela as que dão o mote para o que se seguirá nos próximos dias. Espero profundamente que não se sintam indiferentes porque esta realidade é da responsabilidade de todos nós.

"Hoje, como ontem e como amanhã, falo em nome de vidas que não passam de números inscritos em relatórios e estatísticas. Sou hoje, como ontem e, infelizmente amanhã, a cara sem disfarce e a voz não distorcida de muitos testemunhos inaceitavelmente indignos. Só que hoje, Dia Internacional para o Fim da Violência sobre as Mulheres, a esses testemunhos é concebido um espaço privilegiado nas primeiras páginas dos jornais. Sabemos que a violência e a discriminação exercidas sobre mulheres de todas as idades, de diferentes países, religiões e condições económicas, continuam a ser crimes silenciados e tolerados ao ponto de protelarem e até travarem decisões legislativas, programas específicos de prevenção, de apoio às vítimas e dirigidos aos agressores. São adiadas, de forma incompreensível, campanhas de denúncia, projectos de promoção da cidadania, planos nacionais e compromissos mundiais. Só cumprindo o que tem sido prometido, é possível alcançar medidas de protecção social eficazes, igualdade de género, antidiscriminação e não violência. A exploração e o abuso sexual, a violência doméstica, a mutilação genital feminina, o tráfico de seres humanos e os casamentos forçados são talvez as formas mais comuns e identificadas de violência sobre as mulheres.Mas isso não quer dizer que estejam, como deveriam, na ordem do dia das preocupações de todos nós. E se estas, que são as mais reconhecidas, não têm lugar garantido na nossa atenção diária, muito menos o terão as múltiplas formas disfarçadas de discriminação de género: a disparidade no acesso à escola entre rapazes e raparigas, as dificuldades na manutenção das meninas no sistema de ensino, a ausência de programas e cuidados de saúde sexual e reprodutiva sustentáveis, previsíveis e financiados, os entraves económicos para abastecer os serviços de saúde de medicamentos e equipamentos essenciais à saúde materna e infantil; o escasso apoio a organizações não governamentais de mulheres, as taxas elevadas de gravidez adolescente e a feminização do VIH/Sida. Por isso, e porque tenho a oportunidade de constatar no terreno a prática desta injusta realidade, o que penso ser absolutamente determinante para formar uma opinião, tomo o papel de Embaixadora de Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População como uma prioridade na minha vida. O desafio para assumir a condição de Directora por um Dia do jornal Metro, quero aproveitá-lo como mais uma oportunidade para dar voz a todas as mulheres a quem as nódoas negras tendem, de forma dolorosa, a atingir a dignidade. Quem nos lê no dia de hoje tem também o ensejo de se envolver, agindo e exercendo a sua responsabilidade cívica, num tempo que passa bem mais rápido e mais distraído do que desejaríamos, mas ainda assim, a um ritmo que podemos, se quisermos, acompanhar. O nosso empenho, que é nossa obrigação, irá a tempo de salvar muitas meninas, raparigas e mulheres. Seria bom que este editorial se transformasse numa conversa. Gostaria de vos dar a conhecer tantas e tantas mulheres portuguesas, guineenses, moçambicanas, cabo-verdianas, são-tomenses, timorenses. Elas justificam todos os editoriais e que são a verdadeira razão para que estas palavras não sejam entendidas como um discurso de circunstância ou de oportunidade com carácter político. Quando ouço, vejo e toco estas jovens emulheres, o coração transforma-se em razão e as obras e projectos que colocam em primeiro lugar os Direitos Humanos, a saúde materna e infantil e o planeamento familiar, são para mim e para todos os técnicos que trabalham na área da cooperação, a bandeira a adoptar. E quando isso acontece, muitos têm sido os resultados obtidos. Já se sabe como evitar, e tantas vezes travar, sofrimentos baseados no género, não faz por isso sentido que as melhores práticas não sejam levadas a cada canto do mundo. Não é possível esperar um futuro mais saudável e sustentável se não se investir namulher, na sua voz, no seu trabalho, na sua capacidade de andar com o mundo às costas. A prevenção tem custos mas que são, afinal, o verdadeiro investimento na vida humana e no futuro de todos os países. Ninguém pode ser considerado dispensável. Em Moçambique, a Gilda, de 17 anos, confessou-me, após ter entrado para um programa de jovens voluntários cujo objectivo é a sensibilização para as questões do HIV/Sida, “Eu não sabia que podia falar, ter uma opinião, manifestá-la e lutar por ela. Pensava que eram só os rapazes. Agora sinto-me mais segura.” Em São Tomé, a Nela, de 20 anos, guardou para si, durante um tempo insustentável, a noite emque foi violada por um polícia e que, por ser rapariga e ter engravidado, foi expulsa de casa pelos próprios pais. Em Cabo Verde, a Janine, de 30 anos, contou-me que já não tinha sequer forças para acreditar que um dia poderia viver sem que o marido, alcoólico, a atirasse contra a parede. Na Guiné, a Mariana, de 17 anos, queria tanto estudar para ser professora mas o casamento forçado, com um homem de 60 anos e as três gravidezes (apenas um filho vivo), já lhe roubaram o seu sonho. “Para sempre”, disse-me ela. Em Portugal, a Amália, de 30 anos, esconde-se numa casa de abrigo, com a filha de quatro debaixo da saia. Disfarça o coração acelerado e esconde um sorriso sem dentes que a impede de arranjar trabalho. Na cara, a violência doméstica torna pública a sua vida íntima. Podia continuar com muitas mais histórias que não quero nunca que fiquem só para mim e para as pessoas da Associação para o Planeamento da Família e do UNFPA que me vão transmitindo tantos conhecimentos. Mas, por agora, deixo à vossa atenção as notícias que se seguem, fruto do trabalho de uma pequena grande equipa do Metro que ao fazer-me este desafio, aceitou também o meu. E com toda a garra de que as lutas pelas grandes causas necessitam. Obrigada pela vossa convicção e pelo precioso contributo enquanto meio de comunicação social. E que amanhã seja também Dia Internacional para o Fim da violência sobre as Mulheres. Assim o queiram."

- CATARINA FURTADO, Crónica "Violência Sobre As Mulheres", Jornal Metro 25/11/2010

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Eu chamo-lhe vida

A primeira vez que entrei numa discussão sobre o aborto tinha uma posição bem definida, um vinco muito bem passado. Nunca a abandonei por completo porque não tenho o início da concepção da vida no momento em que o coração bate, mas antes, muito antes. (Ás vezes até o meu coração deixa de bater e eu continuo com vida.) Outra parte leva-me sempre a pensar no corpo e na percepção de uma mãe que não se sente mãe e que se prende precisamente com o que hoje li. Apesar de não conhecer todas as mulheres do mundo, acredito piamente que praticamente todas as que deixam a criança por nascer perdem com ela uma parte de si. Afinal, todos sentimos falta de algo na vida que nunca chegou a ser, mesmo que a coisa mais banal dos nossos dias. Imagine-se então o que é perder um pedaço de nós que nunca se deixou florir, navegando por vezes sobre o engano de que não se sente falta do que não se conhece.
Por outro lado, existe sempre aquele número que não foi feito para agradar às maiorias e ao qual a sociedade muitas vezes se esquece de olhar. As pessoas são pessoas, não são números. E ainda que um aborto seja um dano para a maior parte das vidas, há sempre aquelas, menos, que viram naquela a solução que lhes salvou a vida. Para essa minoria feminina, reconheço o direito de outra escolha, uma opção diferente da que me vejo escolher, porque os ideais de vida são feitos para quem a eles se ajusta. Mas... e aquele ser minúsculo? Aquele aglomerado de células, de pele, de vida? Nega-se-lhe uma escolha por ter o azar de não ser permitido que a idade o deixe manifestar-se? Tanta ética e tão pouca humanidade. Tanto egoísmo de ambos os lados.
Sinceramente, nem sei porque escrevo isto, não tenho por hábito escrever-vos sobre o que não é o meu amor. Mas este também pode considerar-se amor, um diferente, porque não tenho crianças, ainda tenho muito para aprender até chegar essa fase. Mas sabem que mais? Na faculdade tenho aprendido imenso sobre crianças, e muito mesmo sobre as que são diferentes. Tenho aprendido outros olhares de vida e a ver tanto das crianças em muito de mim. De todos nós, aliás! E a cada vez que observo uma criança, mesmo tendo noção das batalhas que a levaram até ali, penso em como será deixar que um daqueles projectos de vida se perca na escolha de um pai ou de uma mãe, de como será que se encontra coragem para não querer uma coisa tão pura como um daqueles seres. Como se rejeita uma parte de nós como esta? E bem sei que há casos em que a criança poderá padecer de males que não merece, e ai de nós vê-la sofrer! Mas também reconheço que não se consegue dar carinho a uma coisa que não se ama. E aí, de que valerá tê-la?
Não sei, sou um bebé e não sei nada da vida. Entendo não poder arbitrar vidas alheias, muito menos se não lhes conhecer as histórias. Mas ainda assim, dói-me. Um dia destes resolvo-me acerca desta dúvida que tenho.
No livro que presentemente me encontro a ler, surgiu num ramo da história esta mesma questão que me levou a apetecer escrever-vos. Em parte, aborda o que referi. Aqui vo-la deixo:

"A minha bebé teria hoje dois anos, seis meses e quatro dias de idade - disse ela. - Ela tinha um problema, um problema genético. Se tivesse sobrevivido seria deficiente mental profunda. Como um bebé de seis meses, para sempre - respirou fundo. - Foi a minha mãe que me convenceu. Disse-me: "Annie, mal consegues tomar conta de ti própria. Como vais tomar conta de um bebé assim? És jovem. Vais ter outro.
" Por isso cedi e o médico fez o aborto às vinte e duas semanas - Annie desviou o rosto, de olhos brilhantes. - Mas o que ninguém nos diz - continuou ela - é que quando damos à luz um feto, recebemos uma certidão de óbito, mas não recebemos uma certidão de nascimento. E depois surge o leite e não podemos fazer nada para impedi-lo - olhou para mim. - Não é possível ganhar. Ou temos o bebé e envergamos o nosso sofrimento exteriormente, ou não temos o bebé e mantemo-lo dentro de nós para sempre. Sei que o que fiz não foi errado. Mas também não me parece que tenha sido certo.
Apercebi-me que há legiões de mulheres como nós. As mães de bebés dilacerados, que passam o resto da vida a pensar se não deviam tê-los poupado. E as mães que abdicaram dos seus bebés que olham para os nossos filhos e vêem os rostos daqueles que nunca chegaram a conhecer.
- Eles deixaram-me escolher - disse Annie - e, mesmo hoje, quem me dera que não o tivessem feito."

JODI PICOULT
, in "Frágil"

quarta-feira, 9 de junho de 2010

O toque da escrita num toque de mim

Sou de mim,
das minhas palavras,
das minhas dores sentadas ao sol.
Sou dos dias em que falo comigo,
das horas em que escrevo
com o vento a marcar o passo das folhas.
É assim a minha vida:
da cor de um sonho,
como um vidro fosco que
permite a transparência
mas não a oferece.
Sou um projecto
que preciso de concretizar,
uma folha solta do caderno.
Seria eterna se me deixassem.
O meu eu nasce no fervilhar das palavras
quando me sento sozinha,
no canto do dia, da vida.
Deixo que elas expludam
alegres, eufóricas,
furiosas, indignadas,
perplexas, desbocadas.
Deixo-as à minha superfície.
Depois,
retiro-as da pele,
passo-as para o papel
e descanso.
Descanso de mim e leio-me
como se lesse outro.
Vou contando pela noite, em voz alta,
uma história que bem conheço e
aprendo por mim um olhar diferente
a uma figura como a minha.
Passo pelas cicatrizes,
por marcas do tempo que o tempo
insiste em mostrar-me.
Ensino-me.
E é uma experiência de mim para mim,
uma descoberta por que espero todos os dias.
Por isso, tenho a escrita como parte de mim.
E enquanto as horas passam eu olho-me.
Olho-me.
E olho-me.
Sento-me em frente ao espelho e
pergunto em que fendas cabem mais palavras.
Onde terei que procurar espaço para as escrever?
De tanta pele que descrevi
já quase me sinto nua.
Liberto-me das máscaras,
expulso as contenções e
vejo-me mais pura,
sem os traços que ao de leve se traçam
durante a tentativa.
Não espero que me conheçam
nem tenho a pretensão de me dar a conhecer.
Eu sou esta.
Sou eu com as minhas palavras
e sou eu com poucos.
A minha essência não foge,
esconde-se em pedaços que carecem de afinidade.
Existo no meu olhar denunciador
sem se cansar.
E no encostar de duas pálpebras
apaga-se a luz e sorrio.
É neste aconchego de
um abraço que me dou
que eu me sinto inteira e peço mais.
Passo um pé sobre o que não me faz falta
e com a conquista de um equilíbrio
levanto o outro e levo-o
para esse lado da margem.
Sou uma alma dançante,
com o desejo de ver a felicidade
em todos os movimentos do mundo.
Sou uma faminta de vida,
a saltar de nuvem em nuvem
atrás de um sol que numa tarde
(mais do que uma)
e no silêncio da solidão
quase deixou de brilhar.
Mas o sol ainda aclara o céu!
O céu...
Sabes de que cor é o céu?
Sabes de cor todas as saias que ele tem?
Quando olho para ele
encanto-me com as milhares de formas que cria.
A metamorfose do azul,
da noite estrelada,
do algodão branco
que no branco não se esgota.
As estações vivem lá
e os meus sonhos também.
Gostava de viver lá,
de edificar uma cidade de nuvens
e observar a vida.
Mas não,
o trago agridoce do dia consegue apaixonar-me cada vez mais:
ver o voo dos outros,
o sorriso espontâneo,
as crianças a correr pra encaixar num abraço.
E ao colo trago o meu dia bom
- ou menos do que isso -
para lhe fazer perguntas durante a noite.
Deito-me,
encolho as pernas,
coloco as mãos de baixo da face e ouço-o.
Às tantas viro-me,
desprendo as mãos e fixo o olhar no tecto
como se estivesse lá fora
a olhar as estrelas.
Então rio-me!
E quando rio fujo com os olhos do tecto
porque deixa de ser a noite a embalar-me.
Outras noites deixo-me ir presa a mim,
a agarrar o dia para o poder tranquilizar com a noite.
Deixo que essa noite me espelhe,
espelho moldado pelas minhas frases.
Outras vezes,
ao som do jazz,
recosto-me nos episódios da vida,
quebro a ordem do calafrio
e por entre as pestanas decido
com que luz deixo que as coisas se pintem.
Deleito-me com a melodia,
com a música a controlar
o bater do coração,
a voz a acalentar com delicadeza
a frieza do ritmo.
Inclino a cabeça.
Inclino-me.
Entro em momentos
que não tocam as palavras
e não se deixam limitar.
Como eu.
Como agora,
no escassear da escrita
em que estou a sentir-me tão eu
que deixo de saber descrever
por que letras me podem conhecer.