Será que ninguém entende? Ou todos entendem menos eu?
Devo viver confudida.
Mostrar mensagens com a etiqueta afectos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta afectos. Mostrar todas as mensagens
sábado, 24 de julho de 2010
Falta de discernimento
About:
afectos,
cunho pessoal
sexta-feira, 23 de julho de 2010
O recomeço num beijo
"- Então - disse ele, e senti os braços dele a envolverem-me. A respiração era quente no cimo da minha cabeça. - O que foi?
Inclinei o rosto para o dele. Queria contar-lhe tudo - o que me disseste, como estava tão cansada, como me sentia vacilar - mas em vez disso ficámos a olhar um para o outro, a telegrafar mensagens que nenhum de nós tinha coragem de dizer em voz alta. E então, devagar, para que ambos soubéssemos o erro que estávamos a cometer, beijámo-nos.
Não me lembrava da última vez que tinha beijado Sean, pelo menos assim, sem ser aquele beijo superficial de despedida por cima do lava-loiça. Era profundo, rude e devorador, como se ambos devêssemos ficar em cinzas quando acabasse. A barba dele deixou-me o queixo em carne viva, os dentes morderam, a respiração dele encheu-me os pulmões. A sala cintilava ao canto do olho e afastei-me para poder respirar.
- O que estamos a fazer? - arquejei.
Sean escondeu o rosto na minha garganta.
- Que interessa, desde que continuemos a fazê-lo.
Então as mãos dele deslizaram-me debaixo da camisola, marcando-me; tinha as costas encostadas à porta de metal e vidro da máquina de secar roupa quando Sean me empurrou contra ela. Ouvi o tilintar da fivela do cinto dele a cair no chão e só depois percebi que tinha sido eu a atirá-la para o lado. Enrolando-me à volta dele, tornei-me numa trepadeira, luxuriante, entrelaçada. Atirei a cabeça para trás e desabrochei.
Terminou tão depressa quanto tinha começado e, de repente, éramos o que fôramos quando começámos: duas pessoas de meia-idade demasiadamente sós para se tornarem desesperadas. As calças de ganga de Sean estavam enroladas nos tornozelos; as mãos dele agarravam-me nas coxas. A pega da máquina de secar roupa estava a magoar-me as costas. Deixei uma perna cair no chão e enrolei um lençol dele em volta da cintura.
Ele estava a corar, um rubor profundo e desgarrado.
- Desculpa.
- Estás arrependido? - ouvi-me dizer.
- Talvez não - admitiu.
Tentei afastar os cabelos emaranhados do rosto penteando-os com os dedos.
- Então e agora o que fazemos?
- Bem - disse Sean. - Não podemos voltar atrás.
- Não.
- E tens o meu lençol de cima em volta do teu... tu sabes.
Olhei para baixo.
- E o sofá é mesmo muito desconfortável - acrescentou.
- Sean - disse eu, sorrindo. - Vem para a cama.
Pensei que no dia do julgamento ia acordar com um nó no estômago ou uma violenta dor de cabeça, mas à medida que os meus olhos se adaptaram à luz do Sol, só conseguia pensar, "Vai correr tudo bem." Os músculos deliciosamente doridos não me incomodavam, virei-me para o lado e espreguicei-me, ouvindo a música do chuveiro a correr, com Sean lá dentro. [...]
Estava de casaco e gravata em vez da farda. "Vai comigo para o tribunal", pensei, começando a sorrir de dentro para fora. [...]
- Posso estar pronta daqui a quinze minutos.
Sean ficou imóvel a meio do processo de te tapar com um cobertor.
- Calculei que fôssemos em carros separados - hesitou. - Tenho de encontrar-me com o Guy Booker antes.
Se ele ia encontrar-se com Guy Booker, isso queria dizer que ainda pensava em testemunhar a favor de Piper.
Estivera a mentir a mim própria porque era mais fácil do que enfrentar a verdade: sexo não é amor e um simples paliativo de uma noite não podia remediar um casamento desfeito.
- Charlotte? - disse Sean, e apercebi-me de que me fizera uma pergunta. - Queres panquecas?
Tinha a certeza de que ele não sabia que as panquecas eram dos bolos mais antigos da América; que no século XVIII, quando não havia fermento, as faziam crescer batendo os ovos para incorporar ar na massa. Tinha a certeza de que ele não sabia que já havia panquecas na Idade Média, quando eram servidas na Terça-Feira de Carnaval, antes da Quaresma. Que se a grelha estivesse demasiado quente, as panquecas ficavam duras e elásticas; e que se estivesse demasiado fria, ficavam secas e duras.
Também tinha a certeza de que não se lembrava de que o primeiro pequeno almoço que lhe servi como sua mulher foi de panquecas, quando regressámos da lua-de-mel. Fiz o polme e verti-o para um saco, cortando-lhe um dos cantos e utilizando-o para dar forma às panquecas. Servi a Sean uma pilha de corações.
- Não tenho fome - disse eu."
Pensei que no dia do julgamento ia acordar com um nó no estômago ou uma violenta dor de cabeça, mas à medida que os meus olhos se adaptaram à luz do Sol, só conseguia pensar, "Vai correr tudo bem." Os músculos deliciosamente doridos não me incomodavam, virei-me para o lado e espreguicei-me, ouvindo a música do chuveiro a correr, com Sean lá dentro. [...]
Estava de casaco e gravata em vez da farda. "Vai comigo para o tribunal", pensei, começando a sorrir de dentro para fora. [...]
- Posso estar pronta daqui a quinze minutos.
Sean ficou imóvel a meio do processo de te tapar com um cobertor.
- Calculei que fôssemos em carros separados - hesitou. - Tenho de encontrar-me com o Guy Booker antes.
Se ele ia encontrar-se com Guy Booker, isso queria dizer que ainda pensava em testemunhar a favor de Piper.
Estivera a mentir a mim própria porque era mais fácil do que enfrentar a verdade: sexo não é amor e um simples paliativo de uma noite não podia remediar um casamento desfeito.
- Charlotte? - disse Sean, e apercebi-me de que me fizera uma pergunta. - Queres panquecas?
Tinha a certeza de que ele não sabia que as panquecas eram dos bolos mais antigos da América; que no século XVIII, quando não havia fermento, as faziam crescer batendo os ovos para incorporar ar na massa. Tinha a certeza de que ele não sabia que já havia panquecas na Idade Média, quando eram servidas na Terça-Feira de Carnaval, antes da Quaresma. Que se a grelha estivesse demasiado quente, as panquecas ficavam duras e elásticas; e que se estivesse demasiado fria, ficavam secas e duras.
Também tinha a certeza de que não se lembrava de que o primeiro pequeno almoço que lhe servi como sua mulher foi de panquecas, quando regressámos da lua-de-mel. Fiz o polme e verti-o para um saco, cortando-lhe um dos cantos e utilizando-o para dar forma às panquecas. Servi a Sean uma pilha de corações.
- Não tenho fome - disse eu."
JODI PICOULT, in "Frágil"
Se assim fosse era fácil demais. Se um beijo começasse por resolver vidas, então que coisas não se poderiam deixar de esperar? Mas nem no livro foi assim, nem na vida real poderia ser. Ou podia? As coisas mudam porque de um momento para o outro repensamos uma ideia que sempre rejeitámos? Como um estalar de dedos, muda-se assim?
About:
afectos,
excerto,
jodi picoult,
literatura
Eu chamo-lhe vida
A primeira vez que entrei numa discussão sobre o aborto tinha uma posição bem definida, um vinco muito bem passado. Nunca a abandonei por completo porque não tenho o início da concepção da vida no momento em que o coração bate, mas antes, muito antes. (Ás vezes até o meu coração deixa de bater e eu continuo com vida.) Outra parte leva-me sempre a pensar no corpo e na percepção de uma mãe que não se sente mãe e que se prende precisamente com o que hoje li. Apesar de não conhecer todas as mulheres do mundo, acredito piamente que praticamente todas as que deixam a criança por nascer perdem com ela uma parte de si. Afinal, todos sentimos falta de algo na vida que nunca chegou a ser, mesmo que a coisa mais banal dos nossos dias. Imagine-se então o que é perder um pedaço de nós que nunca se deixou florir, navegando por vezes sobre o engano de que não se sente falta do que não se conhece.
Por outro lado, existe sempre aquele número que não foi feito para agradar às maiorias e ao qual a sociedade muitas vezes se esquece de olhar. As pessoas são pessoas, não são números. E ainda que um aborto seja um dano para a maior parte das vidas, há sempre aquelas, menos, que viram naquela a solução que lhes salvou a vida. Para essa minoria feminina, reconheço o direito de outra escolha, uma opção diferente da que me vejo escolher, porque os ideais de vida são feitos para quem a eles se ajusta. Mas... e aquele ser minúsculo? Aquele aglomerado de células, de pele, de vida? Nega-se-lhe uma escolha por ter o azar de não ser permitido que a idade o deixe manifestar-se? Tanta ética e tão pouca humanidade. Tanto egoísmo de ambos os lados.
Sinceramente, nem sei porque escrevo isto, não tenho por hábito escrever-vos sobre o que não é o meu amor. Mas este também pode considerar-se amor, um diferente, porque não tenho crianças, ainda tenho muito para aprender até chegar essa fase. Mas sabem que mais? Na faculdade tenho aprendido imenso sobre crianças, e muito mesmo sobre as que são diferentes. Tenho aprendido outros olhares de vida e a ver tanto das crianças em muito de mim. De todos nós, aliás! E a cada vez que observo uma criança, mesmo tendo noção das batalhas que a levaram até ali, penso em como será deixar que um daqueles projectos de vida se perca na escolha de um pai ou de uma mãe, de como será que se encontra coragem para não querer uma coisa tão pura como um daqueles seres. Como se rejeita uma parte de nós como esta? E bem sei que há casos em que a criança poderá padecer de males que não merece, e ai de nós vê-la sofrer! Mas também reconheço que não se consegue dar carinho a uma coisa que não se ama. E aí, de que valerá tê-la?
Não sei, sou um bebé e não sei nada da vida. Entendo não poder arbitrar vidas alheias, muito menos se não lhes conhecer as histórias. Mas ainda assim, dói-me. Um dia destes resolvo-me acerca desta dúvida que tenho.
No livro que presentemente me encontro a ler, surgiu num ramo da história esta mesma questão que me levou a apetecer escrever-vos. Em parte, aborda o que referi. Aqui vo-la deixo:
"A minha bebé teria hoje dois anos, seis meses e quatro dias de idade - disse ela. - Ela tinha um problema, um problema genético. Se tivesse sobrevivido seria deficiente mental profunda. Como um bebé de seis meses, para sempre - respirou fundo. - Foi a minha mãe que me convenceu. Disse-me: "Annie, mal consegues tomar conta de ti própria. Como vais tomar conta de um bebé assim? És jovem. Vais ter outro." Por isso cedi e o médico fez o aborto às vinte e duas semanas - Annie desviou o rosto, de olhos brilhantes. - Mas o que ninguém nos diz - continuou ela - é que quando damos à luz um feto, recebemos uma certidão de óbito, mas não recebemos uma certidão de nascimento. E depois surge o leite e não podemos fazer nada para impedi-lo - olhou para mim. - Não é possível ganhar. Ou temos o bebé e envergamos o nosso sofrimento exteriormente, ou não temos o bebé e mantemo-lo dentro de nós para sempre. Sei que o que fiz não foi errado. Mas também não me parece que tenha sido certo.
Apercebi-me que há legiões de mulheres como nós. As mães de bebés dilacerados, que passam o resto da vida a pensar se não deviam tê-los poupado. E as mães que abdicaram dos seus bebés que olham para os nossos filhos e vêem os rostos daqueles que nunca chegaram a conhecer.
- Eles deixaram-me escolher - disse Annie - e, mesmo hoje, quem me dera que não o tivessem feito."
JODI PICOULT, in "Frágil"
About:
aborto,
afectos,
cunho pessoal,
excerto,
literatura,
vida
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Abraça-me! Abraças?
- "Abraça-me!",
pediu-me uma das minhas princesas ontem quando fomos dormir. É tão genuína esta vontade de uma criança, tão sincera...
Quando deixámos de poder pedir este tipo de coisas a quem queremos, sem intenções? Quando deixaram os abraços de ser uma pura sensação de conforto, de protecção?
Apeteceu-me pedir-lhe um a ela, mesmo que os seus curtos braços não chegassem para me envolver. Não lhe quis colocar tanta responsabilidade num gesto que deve ser desprovido de racionalidade. Um abraço é um abraço. Um abraço é de amor, não deve ter pena no meio.
pediu-me uma das minhas princesas ontem quando fomos dormir. É tão genuína esta vontade de uma criança, tão sincera...
Quando deixámos de poder pedir este tipo de coisas a quem queremos, sem intenções? Quando deixaram os abraços de ser uma pura sensação de conforto, de protecção?
Apeteceu-me pedir-lhe um a ela, mesmo que os seus curtos braços não chegassem para me envolver. Não lhe quis colocar tanta responsabilidade num gesto que deve ser desprovido de racionalidade. Um abraço é um abraço. Um abraço é de amor, não deve ter pena no meio.
About:
afectos,
cunho pessoal
Subscrever:
Mensagens (Atom)