Mostrar mensagens com a etiqueta actualidade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta actualidade. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Patrícia Tadeia, entrevista a Manuel Correia em 60 segundos

Manuel Correia, presidente do Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento (IPAD)

Como tem visto o trabalho da Catarina como Embaixadora de Boa Vontade?
A qualidade do seu trabalho e o apoio à volta da saúde materno-infantil e bem-estar das parturientes é contagiante. Aliás, sem o trabalho dela, não estaria a falar consigo. É a oportunidade de recebermos a atenção dos media por uma coisa muito boa, em vez de, como quase sempre, pelas menos boas.

Portugal tem cumprido o seu compromisso no alcance dos ODM?
Segundo a OCDE, o nosso esforço qualitativo é muito positivo, já o quantitativo, tem nota quase negativa. A crise financeira veio afectar esta situação.

O que é que cada pessoa pode fazer para ajudar?
Os portugueses são muito de impulsos, capazes de tirar a camisola para dar ao próximo. São mais de instintos, não de fazer algo ordenado. Há muitos esforços, muito bem intencionados: juntar livros, material escolar, medicação. Só que por não ser um processo ordenado, perdem-se. O que aconselho é: quem quiser ajudar, contacte o IPAD, e faremos com que a ajuda chegue a quem realmente precisa.


- PATRÍCIA TADEIA, "60 segundos", in Jornal Metro 25/11/2010

Patrícia Tadeia, "Objectivo: chegar a um mundo melhor"

"Em Setembro de 2000, chefes de Estado e de Governo de 189 países, incluindo Portugal, reuniram-se nas Nações Unidas. Ali assinaram a Declaração do Milénio, comprometendo-se a lutar contra a pobreza e a fome, a mortalidade materno-infantil, a desigualdade de género, a degradação ambiental e o vírus da sida.
Sentados à mesma mesa, assumiram ainda o compromisso de melhorar o acesso à educação, a cuidados de saúde sexual, reprodutiva e materno-infantil e a água potável. Para avaliar o cumprimento daquele compromisso, estabeleceram- se oito Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM), a alcançar até 2015 (ver caixa). Portugal está envolvido no cumprimento destas metas. Enquanto país mais pequeno, luta com as dificuldades económicas para investir nas ajudas. Ainda assim, serve de exemplo em matérias como a diminuição da mortalidade materno materno-infantil no próprio País. Pelo esforço que dedica, pelo voluntariado, pela capacidade de ajudar o próximo e sobretudo também pelo conhecimento e experiência técnico-científica e o domínio da língua comum. Diz-se que somos um país solidário. Valemos pela vontade, e tal como a fé, diz-se que move montanhas. Acreditamos que sim."

- PATRÍCIA TADEIA, "Objectivo: chegar a um mundo melhor", in Jornal Metro 25/11/2010

sábado, 27 de novembro de 2010

Catarina Furtado, "Violência Sobre As Mulheres"

Devo confessar que andava curiosíssima para ler esta edição do Jornal Metro e ontem, quando passava os olhos por estas e outras palavras que nele estão manchadas de dor e sede de mudança, doeu-me a consciência. Há tanto por fazer, tanto onde se pode ajudar, tantas mulheres e crianças à espera que lhes digam que sim, que têm o direito de falar, de escolher, de denunciar. Por isso mesmo, comprometi-me a colocar aqui todos os textos que foram publicados naquela edição acerca do tema, em jeito de alertar os que conseguir para o problema. Este, o primeiro, é escrito por uma mulher cujo trabalho é verdadeiramente notório. Falo de Catarina Furtado, a Embaixadora De Boa Vontade Do Fundo Das Nações Unidas Para A População. São as palavras dela as que dão o mote para o que se seguirá nos próximos dias. Espero profundamente que não se sintam indiferentes porque esta realidade é da responsabilidade de todos nós.

"Hoje, como ontem e como amanhã, falo em nome de vidas que não passam de números inscritos em relatórios e estatísticas. Sou hoje, como ontem e, infelizmente amanhã, a cara sem disfarce e a voz não distorcida de muitos testemunhos inaceitavelmente indignos. Só que hoje, Dia Internacional para o Fim da Violência sobre as Mulheres, a esses testemunhos é concebido um espaço privilegiado nas primeiras páginas dos jornais. Sabemos que a violência e a discriminação exercidas sobre mulheres de todas as idades, de diferentes países, religiões e condições económicas, continuam a ser crimes silenciados e tolerados ao ponto de protelarem e até travarem decisões legislativas, programas específicos de prevenção, de apoio às vítimas e dirigidos aos agressores. São adiadas, de forma incompreensível, campanhas de denúncia, projectos de promoção da cidadania, planos nacionais e compromissos mundiais. Só cumprindo o que tem sido prometido, é possível alcançar medidas de protecção social eficazes, igualdade de género, antidiscriminação e não violência. A exploração e o abuso sexual, a violência doméstica, a mutilação genital feminina, o tráfico de seres humanos e os casamentos forçados são talvez as formas mais comuns e identificadas de violência sobre as mulheres.Mas isso não quer dizer que estejam, como deveriam, na ordem do dia das preocupações de todos nós. E se estas, que são as mais reconhecidas, não têm lugar garantido na nossa atenção diária, muito menos o terão as múltiplas formas disfarçadas de discriminação de género: a disparidade no acesso à escola entre rapazes e raparigas, as dificuldades na manutenção das meninas no sistema de ensino, a ausência de programas e cuidados de saúde sexual e reprodutiva sustentáveis, previsíveis e financiados, os entraves económicos para abastecer os serviços de saúde de medicamentos e equipamentos essenciais à saúde materna e infantil; o escasso apoio a organizações não governamentais de mulheres, as taxas elevadas de gravidez adolescente e a feminização do VIH/Sida. Por isso, e porque tenho a oportunidade de constatar no terreno a prática desta injusta realidade, o que penso ser absolutamente determinante para formar uma opinião, tomo o papel de Embaixadora de Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População como uma prioridade na minha vida. O desafio para assumir a condição de Directora por um Dia do jornal Metro, quero aproveitá-lo como mais uma oportunidade para dar voz a todas as mulheres a quem as nódoas negras tendem, de forma dolorosa, a atingir a dignidade. Quem nos lê no dia de hoje tem também o ensejo de se envolver, agindo e exercendo a sua responsabilidade cívica, num tempo que passa bem mais rápido e mais distraído do que desejaríamos, mas ainda assim, a um ritmo que podemos, se quisermos, acompanhar. O nosso empenho, que é nossa obrigação, irá a tempo de salvar muitas meninas, raparigas e mulheres. Seria bom que este editorial se transformasse numa conversa. Gostaria de vos dar a conhecer tantas e tantas mulheres portuguesas, guineenses, moçambicanas, cabo-verdianas, são-tomenses, timorenses. Elas justificam todos os editoriais e que são a verdadeira razão para que estas palavras não sejam entendidas como um discurso de circunstância ou de oportunidade com carácter político. Quando ouço, vejo e toco estas jovens emulheres, o coração transforma-se em razão e as obras e projectos que colocam em primeiro lugar os Direitos Humanos, a saúde materna e infantil e o planeamento familiar, são para mim e para todos os técnicos que trabalham na área da cooperação, a bandeira a adoptar. E quando isso acontece, muitos têm sido os resultados obtidos. Já se sabe como evitar, e tantas vezes travar, sofrimentos baseados no género, não faz por isso sentido que as melhores práticas não sejam levadas a cada canto do mundo. Não é possível esperar um futuro mais saudável e sustentável se não se investir namulher, na sua voz, no seu trabalho, na sua capacidade de andar com o mundo às costas. A prevenção tem custos mas que são, afinal, o verdadeiro investimento na vida humana e no futuro de todos os países. Ninguém pode ser considerado dispensável. Em Moçambique, a Gilda, de 17 anos, confessou-me, após ter entrado para um programa de jovens voluntários cujo objectivo é a sensibilização para as questões do HIV/Sida, “Eu não sabia que podia falar, ter uma opinião, manifestá-la e lutar por ela. Pensava que eram só os rapazes. Agora sinto-me mais segura.” Em São Tomé, a Nela, de 20 anos, guardou para si, durante um tempo insustentável, a noite emque foi violada por um polícia e que, por ser rapariga e ter engravidado, foi expulsa de casa pelos próprios pais. Em Cabo Verde, a Janine, de 30 anos, contou-me que já não tinha sequer forças para acreditar que um dia poderia viver sem que o marido, alcoólico, a atirasse contra a parede. Na Guiné, a Mariana, de 17 anos, queria tanto estudar para ser professora mas o casamento forçado, com um homem de 60 anos e as três gravidezes (apenas um filho vivo), já lhe roubaram o seu sonho. “Para sempre”, disse-me ela. Em Portugal, a Amália, de 30 anos, esconde-se numa casa de abrigo, com a filha de quatro debaixo da saia. Disfarça o coração acelerado e esconde um sorriso sem dentes que a impede de arranjar trabalho. Na cara, a violência doméstica torna pública a sua vida íntima. Podia continuar com muitas mais histórias que não quero nunca que fiquem só para mim e para as pessoas da Associação para o Planeamento da Família e do UNFPA que me vão transmitindo tantos conhecimentos. Mas, por agora, deixo à vossa atenção as notícias que se seguem, fruto do trabalho de uma pequena grande equipa do Metro que ao fazer-me este desafio, aceitou também o meu. E com toda a garra de que as lutas pelas grandes causas necessitam. Obrigada pela vossa convicção e pelo precioso contributo enquanto meio de comunicação social. E que amanhã seja também Dia Internacional para o Fim da violência sobre as Mulheres. Assim o queiram."

- CATARINA FURTADO, Crónica "Violência Sobre As Mulheres", Jornal Metro 25/11/2010