domingo, 10 de novembro de 2013

"Não precisas de esperar mais à janela. Estou a ir", pensou ele

- Ter-lhe-ia dito se justificasse, se a desilusão não fosse consumi-la com a rapidez com que fumo o cigarro. Sempre que fumo à janela fico a imaginá-la. Mas ainda não sei que palavras diria ela. Às vezes fala em silêncio.

Pegou no maço e tirou os últimos cigarros.

- Queres? Passa-me o isqueiro por favor.

Acende o cigarro e observa-a. Repara como a alça lhe cai sobre o braço. Ia pegar-lhe quando aquele ombro subido, a acariciar a própria face, o deteve. Lembrava-lhe alguém.

- Não te queres vestir?

Ela olhava do outro lado da janela. Observadora, esperou que eles se despedissem. Causou-lhe frio. Os tremores desciam aos joelhos e assaltaram-lhe os ombros, que encolheu. Sem saber bem porquê preferiu sair e esperar à sua janela.

domingo, 26 de maio de 2013

Encontrei dois pratos na mesa adornados com um guardanapo em tons de branco e umas quantas pinceladas a rosa velho e cores que tal. Um copo para ti e outro para mim, supus. Os restantes objectos estavam cuidadosamente alinhados à espera de serem usados. Curiosamente, não sentia perfume algum que indiciasse o que preparavas. Típico, lembrei-me segundos mais tarde. As tuas mãos não criam presentes perfeitos na cozinha.
O som da água a cair
não te apercebeste da minha chegada. Se bem te conheço, vais demorar-te no quarto enquanto a água tende a aquecer. Sempre fizeste isso. Às duas por três perdes-te no tempo envolvido na dúvida da camisa branca ou das calças mais escuras quando as mais claras ficariam lindamente dizia-te eu. Outros são os dias em que me fazes chegar atrasada porque o par da meia não é aquele que devia ser e tu sem o par correcto não és capaz de sair mesmo que as cores se desviem quase imperceptivelmente. E eu repito mais uma vez que um dia vou substituir tudo o que existe nessa gaveta por meias de menina porque entre o cor de rosa e o amarelo dificilmente te havias de perder.
Descalço um sapato de cada vez quase caindo na minha pressa. Pé ante pé subo as escadas para te encontrar. Quem vai fazer a surpresa sou eu afinal. Espreito
estás de costas para a porta aberta, já sem camisola. Em cima da cama três camisas e em ti um nervosismo clássico. Clássico e raro direi.
Entro?
Fico encostada à porta à espera que me olhes. Quero ver a tua expressão quando me encontrares a seguir de perto o teu plano. Vi-te pegares nas tuas hipóteses e posso jurar que desviaste a cabeça à direita com a sensação de que estarias a ser observado. Desististe de procurar essa presença claro. Quem para além de ti poderia estar ali no nosso quarto naquele momento? Tinhas a casa e o tempo sob o teu controle confiavas tu. E o teu ouvido perfeito que parece obra de cego teria desocultado a minha presença no momento em que rodei a chave do lado de fora da nossa porta de entrada. Só uma escolha e 2 minutos depois te deparaste com a minha figura. Deste um passo atrás e abriste ligeiramente a boca, um quase completo desiludido e eu que tinha os braços cruzados sorri para ti e abanei a cabeça. Desapertei o casaco e murmurei apenas que iria desligar a água. Calei-te a ti e
acordei. Procurei a almofada ocupada mas o único peso que a cama sentia era o meu. Retraí-me para pensar se devia procurar-te ou se deveria deixar-te beber o copo de água que manhã sim manhã não deixas pousado junto à janela da cozinha. 30 segundos, 2 minutos, 7 minutos nunca demoras tanto, onde estás? A água está sempre fresca pronta para que a vás deitar. Ainda há quatro copos no armário, só dois estão a lavar e não caíste eu notaria. A luz da casa de banho está apagada.
Não consegues dormir?
Tens o computador desligado não ouço a televisão não sei de ti. Deixo para lá o cobertor e sento-me na cama a olhar a persiana que ficou por fechar. Um arrepio
subiu-me um arrepio que me gelou o corpo e eu não soube interpretar essa sensação. Calço-me um chinelo no tapete o outro debaixo da cama quero lá saber
preciso de ti aqui porque tenho um arrepio que não me larga. Saio descalça e acendo a luz que ilumina as escadas. Sim
o bengaleiro perdeu o teu casaco já lá vão dois meses esqueci-me. As tuas chaves estão fora de sítio não estão em lado nenhum e perdi a noção disso. Desço os degraus com a mão esquerda no corrimão e engulo em seco quantas vezes não sei. Sento-me ao fundo sozinha comigo.
Detive-me a olhar a moldura que me ofereceste no dia em que nos mudámos para a nossa casa. Levantei-me e toquei-te no vidro polido que ao toque senti áspero como cornos de outra forma não poderia fazê-lo. Peguei-lhe e tirei a fotografia que levei até à cozinha onde o teu copo espera por ti. Enchi o copo com água acendi um cigarro fumei-o sentada na bancada com as pernas esticadas e os pés assentes na nossa fotografia. Adormeci ali e quando acordei ainda era noite. Levantei-me passei o copo por água e misturei-o no meio dos congéneres porque não quero mais saber. Um copo é um copo e a fotografia era uma fotografia que acabou arrumada na caixa que guardávamos no quarto com roupa que íamos doar no dia em que achássemos que teríamos tempo. Passo pela moldura vazia antes de me deitar e
todos os dias aquilo não é nada já não há nada nem nunca chegará a realmente ser o que quer que seja (fosse).

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

na primeira pessoa

Consegues recordar aqueles momentos que fotografas na memória? Por exemplo quando o comboio chega naquele fim de tarde que para ti significa mais uma mansarda de dia e a música certa está a tocar no teu bolso. O vento sopra-te a vida e madeixas aleatórias de cabelo, mas só a ti. Para te acordar de um pesadelo em que adormeceste há dias e de onde ainda hoje não acordaste. E nesse exacto frame olhas para um lado e para o outro tal e qual como se quisesses atravessar uma passadeira na Avenida da Liberdade. E o comboio que não aparece. Tu a quereres atravessar aquele dia, e ele a ficar preso neste minuto e no seguinte, fazendo-te repensar desejos e medos. Sentes-te observada por umas três pessoas, sabes como é? Sim, sentires-te nua aos olhos daqueles três corpos que nunca viste e que partilham uma compreensão que não sabes medir. Secalhar até nem é nenhuma. Mas lêem-te com o mesmo olhar que lanças à mala que preferias deixar para trás.

Pequenina, escondes-te atrás da linha amarela que as normas de segurança decidiram que não deves ultrapassar. Escondes-te em ti, foges por entre os cabelos que o vento insiste em empurrar-te para os olhos. Não sabe ao mesmo que ter a areia a invadir-te a pele, cortante pela velocidade, mas esconde uma réstia de tortura contextual que não sei explicar.

Anyway...

Sabes que não pára por aqui. Que há por aí alguma coisa que tens que descobrir com a mesma surpresa que te fica estampada no rosto naqueles dias em que és presenteada só porque sim, porque a razão não preenche a totalidade das coisas. A surpresa pode até surgir daquilo que já conheces. Como eu dizia, não há nada que pare por aqui.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Vincos

Quando passei para o lado de lá da estrada já levava comigo a sensação de uma menina que, ao contrário dos pares, saltava com um pé e o outro para tocar somente as riscas pretas da passadeira. Correr pelo branco é para quem carrega a despreocupação dos dias leves que cedo acabam para deixar chegar o seguinte.
Ao olhar esses sinais que o tempo, lembro-me, não tinha esculpido nos vincos que a tua pele agora exibe, apercebi-me de que já sabia o que ao corpo teimava em fazer escapar. Vincos como esses que hoje observo são de quem tem decididas as linhas do que jamais será, pensamentos que bruscamente penetraram onde o nosso incêndio começou por esmorecer.
Depois da passadeira, e olhos no chão que o futuro já partiu sem eu saber, ainda me seguras a mão. Que eu não sou de quem nunca me fez vaguear à margem do rio em contra-corrente... Tal qual tu e eu. Nessa única mão em que uma história se entrelaça resido eu e os dias em que esperei que essa mesma mão tocasse as minhas costas quando repousava o corpo sobre a areia de uma praia da marginal, onde perdi conta aos quilómetros e às tardes em que o cabelo corou ao sol. Pessoas passavam e outros corpos como eu ali sentados escorriam os males do dia.
Já na praça aberta que convida o rio a entrar, os mesmo males foram pesados por ti num prato de uma balança certamente diferente da minha.  Efeitos da água doce, para o caso de querer desculpar alguém.
Entretanto envolta na preferência de observar as histórias dos outros do que tornar real o fim da nossa, ouvi-te um início de uma série de palavras que me iriam trazer a ti.
- Sim.
É tudo quanto posso dizer quando a simbiose se consegue com as cores de céu em fim de dia. Está tudo de acordo contigo, só falto eu.
- Não demorará muito, já conhecemos o caminho.
E depois da minha voz levaste as duas mãos aos bolsos, pois já andavam por aí à pendura sem sabrer onde se meter. Nesse movimento o alívio e ao mesmo tempo a disfarçada desilusão de quem tentou reconstruir a história e nesse caminho se perdeu.
-  Por ali? Vamos embora que o relógio parou para nós.

Encostados a imagens que haveríamos de deixar para trás, caminhámos lado a lado até à última rua que eu iria tocar por ali. Quem sabe um dia começa o relógio a sentir andar a corda num princípio que Newton chamava da ação e reação.

domingo, 29 de janeiro de 2012

«sem restos de prudência»

"De manhã cedo o carro segue em direcção a Lisboa na companhia do mar. O Sol baixo encandeia, e por instantes fecho os olhos e deixo-me levar pela tua imagem, embalado na doce memória do teu corpo. Sou marinheiro em caravela e o oceano a meu lado. A maré sobe e enche-me de ti, dos teus olhos que se fecham em silêncio no momento em que me amas. Não há mais espaço, querida. O meu peito é um casco onde nada mais cabe. Só o coração no porão, lastro que guarda um continente de perfumes exóticos e especiarias, cores e matizes que os homens desde há muito buscam. Por dentro vou repetindo, saboreando as palavras com lentidão gulosa: «Navego à bolina do teu vento». De repente não sou mais barco, mas o balão silencioso que nos transportou pelas planuras de África, numa manhã semelhante, feita de ocres e palha, e manadas de antílopes de corpo redondo como o das mulheres, galopando debaixo de nós. O mundo virou ao contrário, e o mar é agora céu da mesma cor. E o vento que nos impele com o mesmo cuidado de mão de mãe. Navego à bolina do teu vento, e amo-te de forma imbecil, sem restos de prudência (...)"

- NUNO LOBO ANTUNES, in "Vida Em Mim" (pp. 57)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Timeline

Naquela noite, debaixo da chuva, duas silhuetas esconderam-se sob uma varanda. A novidade era-o pela segunda vez, mas das gotas molhadas já se sabia de cor a sensação. No canto de uma praça para boémios, duas mãos procuraram o conforto que evitavam precisar. Num olhar, um procurou o outro e a segurança tremeu. Abalaram-se convicções que se começavam a perder de vista e horas depois, oito, da noite para o dia, na mesma praça, já não eram duas as mãos que não se deixavam.

Na tarde que se seguiu, com olheiras e entusiasmo mal disfarçados, um despediu-se do outro com a promessa de ali voltar (definitivamente). E nesse momento eram os minutos que não paravam de avançar, o relógio por avariar. A tarde insistia em voar em direcção à noite, mas nunca acelerando o reencontro que já demorava. Olhos nos olhos, força no corpo para não parecer frágil, ela tentou disfarçar entre finas madeixas de cabelo o medo de não regressarem. Deixou-se abraçar por ele para tentar que a ausência deixasse que lhe ocupassem o lugar e depois, querendo reter aqueles segundos por dias, deixou os pés em bico para o entrelaçar nos seus braços menos longos. Com a dificuldade que horas antes não adivinhava, viu-o então partir. Esquecendo os sussurros de quem anda numa roda viva para voltar a casa e começar o jantar, seguiu-lhe o movimento de quem descia as escadas quando na verdade só as quer voltar a subir. Só quando se viu forçada a partir abandonou o palco daquele dia.

Meses depois, ela lança à praça o destino de um dia. Que ali perto dois mundos se desencontraram para pouco mais voltar a encontrar. Quarteirões acima, ou abaixo se o dia tiver sido mau, perdeu-se o trajecto. Um dos lugares vai vazio e a porta trancada para não deixar entrar. É que ela abre por dentro, se se justificar, mas do lado de fora não existem passes de livre trânsito para entrar.

Mesmo assim, tomou-lhe o (des)gosto e correu para um chão que já pouco lhe diz. As mãos iam trémulas a denunciar que a viagem devia ficar por ali. Mas não ficou. Atrás de uma parede, encolhida no carro que resistia na rua, deixou passar os momentos que quis numa timeline que ainda não aprendeu a guardar, observando janelas despidas que já não ia encontrar. Por fim, quando o corpo mostrava sinais de começar a dobrar as fronteiras da resistência, ela desvia o olhar para o habitáculo, deixa cair os braços sobre o colo, perde uns segundos e sabe que é tempo de partir.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Em perturbações do desenvolvimento? «Nivelar a corrida»

"Mais do que médico, caro amigo, sou relojoeiro. A sério, tento afinar o relógio da existência, acertar horas e minutos para que cada etapa seja vivida sem soluços inúteis ou evitáveis. (...) Eu sou uma espécie de oficial de partidas, e o meu objectivo é nivelar a corrida, pôr todos os meninos em condições de igualdade e cronometrar-lhes os tempos. Às vezes sinto-me chefe dos escuteiros, homem grande de calções, levando os meus meninos por trilhos por onde passei. A angústia, caro amigo, é saber que sou um homem maduro que brinca à cabra-cega, porque muitas das crianças que acompanho andam aos apalpões, de olhos vendados sem o saberem. Sabe como é andar na estrada e pelo espelho retrovisor ver os outros que nos perseguem? A sensação que tenho em relação às crianças que acompanho é semelhante. Já fiz o percurso, conheço as armadilhas e só quero que me acreditem. (...)
Como talvez saiba, hoje em dia dedico-me sobretudo a crianças de futuro ameaçado. Não que a sua vida esteja em perigo, nada disso, mas porque correm o risco de «falhar». A noção de falhanço não é tanto vista como problema actual, mas como projecção no futuro, antevisão da sua qualidade de vida, incapacidade para criar e aproveitar oportunidades, em suma, de ser «alguém». No fundo, os pais querem cuidar do futuro dos filhos, criar condições de realização profissional e pessoal quando eles próprios já não tiveram forma de intervir. Exercer influência à distância, prevenir, dar instrumentos. (...) Já escrevi que a maior parte dos pais faz o melhor que pode e sabe, num quotidiano de problemas sem solução segura. Quem me procura vive na angústia de ver os filhos cortar amarras demasiado cedo, e serem arrastados por correntes que não dominam, para destinos que não controlam."

- NUNO LOBO ANTUNES, in "Vida em Mim"

«O tecto protege ou limita?»

"A mãe argumentava, o pai desistia, e eu pasmava. Perante um adolescente, a primeira preocupação do médico é criar pontes, numa espécie de operação de engenharia militar que perante enxurradas que alargaram os leitos, arrastando consigo gentes e pedras, para que se possa aceder à outra margem, colocam por medida barras de metal, ainda que transitórias, mas por onde, um a um, homens gritam que já não estão sós. Temos a noção de que algures no tempo essas pontes agora caídas e intransitáveis permitiam contactos, permeavam influências, ditavam comportamentos. Às vezes não consigo, desisto, e enquanto me despeço e fecho a porta do gabinete, largo a mão, fixo o horizonte, e deixo que a corrente os leve. O próximo...
É buscando a minha própria humanidade que procuro decifrar os outros. Às minhas misérias vou buscar a tolerância que gostaria que tivessem comigo. Nos meus erros não encontro consolo, apenas a antecipação da mortalidade. Exijo muito, cumpro pouco. Smpre me fascinou o dilema que se coloca ao saltador em altura. Bateu o recorde, ganhou o campeonato. Pode ficar por aí, colher os aplausos, baixar o pescoço e recolher a medalha. Chorar durante o hino. A alternativa é pedir para subirem a fasquia só mais um centímetro, derrubar a barra e reconhecer o seu limite. Nessa circunstância, a que soarão os aplausos? Será que por dentro se apupa por não ter voado mais alto? O tecto protege ou limita? A competição desenrola-se dentro de nós. Somos o palco e o competidor, juiz e espectador, e, no fim, perdemos sempre."

- NUNO LOBO ANTUNES, in "Vida em Mim"

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

"Monólogo a várias vozes"


"A vida é uma viagem, todos o sabemos. Navegação à vista que a rota não foi prevista e o mapa se vai revelando à medida que o tempo caminha. É desconhecido o destino, são incógnitos os portos, escassas as enseadas onde encontrar abrigo. O barqueiro tem uma venda, e cego, o barco prossegue arrastado por ventos e marés, ferido aqui e ali, por correntes e escolhos. Continuamos viagem sem saber bem o que nos guia e que porto demandamos. Pela minha parte, tento encontrar coerência no meu percurso, o sentido oculto, a harmonia que se deverá esconder por detrás de tudo."

- NUNO LOBO ANTUNES, in "Vida em Mim"

domingo, 4 de dezembro de 2011

Canção de alterne


E por tantas vezes dançamos todos
sem explicações coerentes ao som de uma privada canção de alterne que
alternadamente empurra um de dois contra o outro. Empurra-se depressa porque
longe estamos de apreciar vagarosamente o que mais queremos, se é que
se aprecia.
Despidos do velho compromisso
encontram-se tantos de luz apagada porque às claras já nada se entende. Pois
que visto o recreio de fora a sentença não muda.

365 à luz do corredor


Dali para o corredor onde a alegria e a malícia por vezes cresceram juntas podem-se recriar imagens sem conta. Desde o corpo acolchoado sobre braços voluntários, a mãos que tocavam o que seguia em frente, não deixando passar com descrição os sucessivos regressos e pacíficos abandonos de alguém com um compromisso na agenda.
Cedo, muito cedo começaram as viagens de deleite esfusiante às quais qualquer comparação faria o concorrente abandonar uma corrida em desvantagem. Das noites longas em curta duração saíram desejos por cumprir, diálogos a passear sobre o sono e o toque seguro entre quem não quer ter mais para onde ir.
Nesse corredor tudo se mistura. É o espelho do que foi, reflectido no lençol por enrugar que há-de sentir, talvez, o pulsar do contacto atrapalhado pelo que se diz não sentir.

Contabilidade da emoção

"Brincávamos a cair nos braços um do outro, como faziam as actrizes nos filmes com o Marlon ... Brando, e depois suspirávamos e ríamos sem saber que habituávamos o coração à dor. Queríamos o amor um pelo outro sem hesitações, como se a desgraça nos servisse bem e, a ver filmes, achávamos que o peito era todo em movimento e não sabíamos que a vida podia parar um dia. Eu ainda te disse que me doíam os braços e que, mesmo sendo o rapaz, o cansaço chegava e instalava-se no meu poço de medo. Tu rias e caías uma e outra vez à espera de acreditares apenas no que fosse mais imediato, quando os filmes acabavam, quando percebíamos que o mundo era feito de distância e tanto tempo vazio, tu ficavas muito feminina e abandonada e eu sofria mais ainda com isso. Estavas tão diferente de mim como se já tivesses partido e eu fosse apenas um local esquecido sem significado maior no teu caminho. Tu dizias que se morrêssemos juntos entraríamos juntos no paraíso e querias culpar-me por ser triste de outro modo, um modo mais perene, lento, covarde. Eu amava-te e julgava bem que amar era afeiçoar o corpo ao perigo. Caía eu nos teus braços, fazias um bigode no teu rosto como se fosses o Marlon Brando. Eu, que te descobria como se descobrem fantasias no inferno, não queria ser beijado pelo Marlon Brando e entrava numa combustão modesta que, às batidas do meu coração, iluminava o meu rosto como lâmpada falhando a minha mãe dizia-me, Valter tem cuidado, não brinques assim, vais partir uma perna, vais partir a cabeça, vais partir o coração. E estava certa, foi tudo verdade."
- VALTER HUGO MÃE, in "Contabilidade"

terça-feira, 8 de novembro de 2011

...


I've missed you today.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

«Like that's gonna be any easier»

"People are really romantic about the beginnings of things. Fresh start. Clean slate. A world of possibility. But no matter what adventure you're embarking on, you're still you. You bring you into every new beginning in your life, so how different can it possibly be.

It's all anybody wants, right? Clean slate. A new beginning. Like that's gonna be any easier. Ask the guy pushing the boulder up the hill. Nothing's easy about starting over. Nothing at all."

- Quote from GREY'S ANATOMY

(Guillaume!)


Podia dizer-te daqui quantas vezes te coloquei na corda bamba, mentalmente criando episódios em que farias por eu te abandonar. Ou seria eu, enfadada por medidas sempre iguais do comportamento que não pedi.
Farta de fingir que estou a trabalhar, sorrio para ti. Continuas apegado ao teu brinquedo favorito, qual aceso adolescente fora de tempo e por isso não me vês. Ainda hoje não sei do que sei mas acredito em ti. Continuo com os lábios arqueados embalada nesse sentimento adorável de te ter não me separando da sensação de que há quem me queira mais do que por aqui.
E descuido-me baixinho:
- Guillaume.
- O quê?
Levantaste o olhar para mim. Eu levei as mãos à face e encostei-me a elas com uma ligeira inclinação, nunca me desviando de ti. E ignorando o que disse para que ignorasses o que ouviste, sorri e afirmei com a maior certeza do mundo:
- Amo-te.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Era isto...

A casa vazia e o intelecto quieto.
Já pedi que me deixassem as mensagens no correio, as vozes à porta. De onde me levanto não trago sombra sequer.
Era isto
A falta de balanço de que já não me lembrava
A carcomida vontade que um dia já tinha vestido.
Hoje já não te lembras de nada, como se
Como se os dias se condensassem em nuvens que voam para longe.

sábado, 29 de outubro de 2011

«Estás preparada?»


"(Prepara-te bem porque daqui a pouco)
e por mais que quisesses tentar já nem forças para tentar, simplesmente
Não te lembras
Não te lembras
Podes continuar a circular, tocar nas coisas, avaliar o peso dos objectos,
olhar mil vezes fotografias que te mostram, dizem-te nomes que não reconheces, simplesmente
Não reconheces
(Estás preparada?)"

- RODRIGO GUEDES DE CARVALHO, in "Mulher em Branco"

«Velhas e cansadas de correr»

"O amor não tem portas que possamos abrir e fechar, nem passagens secretas para um sótão onde possamos fazer férias dele. Toma conta de tudo em nós, envolve-nos como um lençol de tédio, sedoso, infindo. Ninguém fala deste tédio sublime, tão contrário à acção e à eficácia, imóvel inimigo do progresso do mundo. Só no trono do sonho, iluminado e funesto, o amor interessa. Prolongada, a vida torna-se demasiado curta e o amor ganha o ritmo da chuva que bate leve, levemente.
Habituámo-nos a tratar os amores como electrodomésticos: quando se escangalham, vamos ao supermercado comprar um novo, igualzinho ao que o outro era. Consertar? Não compensa: o arranjo sai caro, além de que nunca se sabe muito bem onde procurar a peça que falta. Substituímos a eternidade pela repetição, e o mundo começou a tornar-se monótono como uma lição de solfejo. Tememos a maior das vertigens, que é a da duração. Mas no fim de cada sucesso há um cemitério como o de Julieta e Romeu, apenas com a diferença da aura, que é afinal tudo. As pessoas morrem cada vez mais velhas e cansadas de correr, e os seus cadáveres tensos soçobram de ridículo sobre a terra das suas efémeras conquistas."

- INÊS PEDROSA, in "Nas Tuas Mãos"

sábado, 22 de outubro de 2011

Meaningful


I love to hear jazz, blues and soul. By the silent night, the same way it absorbs me while it is being played, the simple image of you appears to invite me losing track on a trip we had never planned.

Do you know how many times am I lost in meaningless things, looking at the window and having the thought of you warming me?

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Repetição

Dos que mais gostei de escrever:


Ela estava completamente alheada do que a rodeava. Só a brisa ainda a fazia sentir-se acordada. Enquanto as ondas rebentavam, revoltas, e as crianças corriam em direcção à meta, ela permanecia imóvel, fitando o horizonte, a linha tão imaginária quanto a sua felicidade.
Havia dias desde o último sorriso que se lembrava de esboçar: natural, sincero, espontâneo. Lembra-se bem: ele olhou para ela, afastou a madeixa de cabelo que lhe escondia a expressão e disse, no tom mais apaixonado que ela lhe conhecia, que a amava. Depois, colou os seus lábios à sua pele num beijo demorado e ternurento. Foi aí que sorriu, imediatamente antes de ele se afastar.
Foi desde essa noite, em que o frio característico se opunha ao calor dos sentimentos, que ela se encheu do maior vazio que já havia experimentado. Passava os dias ali, na praia, na esperança de ter o mais curto pousar de olhos sobre a figura dele. Em boa verdade, não sabia o que fazer se o visse, se devia falar, dirigir-se a ele ou continuar o que ele começou.
O adeus. Foi o que de mais ingrato ele lhe poderia oferecer. Naquele momento, sentiu uma dor desmedida na voz dele e por muito que agora se arrependesse por não ter tentado impedi-lo, na altura não foi sequer capaz de pensar. A dura realidade tomou-a de assalto e ela sucumbiu a um terrível estado de incredulidade. E, na impossibilidade de se debater, viu-o partir.
Agora era tarde, mas ela era incapaz de deixar libertar o sofrimento que ele lhe provocou. Porque se assim fosse, em breve ela esqueceria o rosto, o cheiro, a imagem, os sentimentos. Deixar-se sofrer obrigava-a a recordar cada momento que haviam partilhado. E assim, tudo o que restava da sua história era mais lentamente apagado. Os contornos iriam permanecer, tempo nenhum os poderia apagar, mas tudo o resto, todos os pormenores, mais ou menos importantes, iriam involuntariamente abandoná-la.
E ele? Seria ele indiferente a todos os detalhes que dela pudesse perder? Estaria, ou não, disposto a deixá-la afogada na maior das dores? No maior dos sofrimentos? Até onde estaria ele disposto a permitir o fim do que nunca deveria sequer ter terminado? Não, ela não fazia a mais pequena ideia. E sem querer, estas dúvidas ocupavam-na durante todo o dia, a qualquer que fosse a hora.