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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Desejo de vida

Aproveitei a tarde para a visitar: fui ver a avó, a que do avô confessa ter saudades. Vi o peso da ausência nas rugas da face, nas pregas da alma. E ainda assim, a vontade de continuar por cá.


"Tu estavas, avó, sentada na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabias e por onde viajarias, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e disseste, com a serenidade dos teus noventa anos e o fogo de uma adolescência nunca perdida: "O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer."Assim mesmo. Eu estava lá."

- JOSÉ SARAMAGO, in "As Pequenas Memórias"

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Morto sem morte

"Só estando mortos assistimos, e nem disso podemos estar certos, morto sou eu (...) e contudo não me sinto como se apenas assistisse (...) o pior, porque é irremediável definitivamente, é o gesto que não fiz, a palavra que não disse (...) Não há sossego no mundo, nem para os mortos nem para os vivos (...) os vivos ainda têm tempo para dizerem a palavra, para fazerem o gesto (...) morre-se de a não ter dito, morre-se de o não ter feito, é disso que se morre, não de doença."

JOSÉ SARAMAGO, in "O Ano da Morte de Ricardo Reis"

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Do lado direito

(...) Lembro-me de há muitos anos estar deitado no chão, no campo (todos nós devíamos ter nascido e vivido no campo), com o céu por cima, azul, com vagarosas nuvens. De costas era a posição, e é a posição para quem quer sujeitar-se à experiência. É importante que haja silêncio. (Um leve fundo de cigarras, folhagens e piar de aves não perturba. Havia tudo isto no momento de que falo.) Eu estava deitado de costas e tinha o céu por cima. E bruscamente o céu tornou-se qualquer coisa onde se podia cair. Não era a força da gravidade que me mantinha colado à terra, mas a minha vontade. Com as mãos espalmadas no chão, enterrava os dedos na erva macia - enquanto o céu se tornava cada vez mais fundo e azul, e as nuvens mais vagarosas, até tudo se suspender num minuto de terror absoluto e de fascinação. Eu ia cair no céu infinitamente. Animal deste planeta, sem asas que me levassem sequer à nuvem mais baixa, sentei-me de rompante, rolei de bruços, de rosto contra a terra húmida. Só por isso é que não fui o primeiro cosmonauta da história.
Foi uma pequena emoção num mundo já então abundante de emoções. Ora, há dias aconteceu-me outra vez estar prestes a cair no céu.
Era também azul, e havia nuvens. Não faltavam as cigarras, nem os pássaros. O tempo passado anulou-se de súbito, o homem achou-se criança - e o céu renovou as suas tentações. Que foi que não fiz?, pergunto agora então. Que coisas me foram prometidas e negadas, ou dadas e perdidas? Que vem fazer aqui este belo demónio azul, esta vertigem esta tentação de renúncia, ou apenas a rápida consciência de uma dimensão poética que o mundo não aguenta, ou não aguento eu vivendo nele?
Deixei-me ficar a ver o céu. Bem sabia que não ia cair para cima. O tempo reconstituiu o que desfizera: achei-me quem sou e no mundo em que vivo. Vagamente inquieto, vagamente perplexo, primeiro, mas logo, enquanto enxugava uma gota de suor que me escorregava ao longo do pescoço, recobrei a lembrança da frase que me esquecera: «Não sei o que cá faço, e é importante que o saiba. Mas mais importante é fazer». E para o meu lado direito me voltei, como quem se reconhece e entrega.

JOSÉ SARAMAGO, "Cair no Céu", in Deste Mundo e do Outro (1971)

sexta-feira, 18 de junho de 2010

«Não há dois sorrisos iguais. Temos o sorriso de troça, o sorriso superior e o seu contrário humilde, o de ternura, o de cepticismo, o amargo e o irónico, o sorriso de esperança, o de condescendência, o deslumbrado, o de embaraço, e (por que não?) o de que...m morre. E há muitos mais. Mas nenhum deles é o Sorriso.O Sorriso (este, com maiúsculas) vem sempre de longe. É a manifestação de uma sabedoria profunda, não tem nada que ver com as contracções musculares e não cabe numa definição de dicionário. Principia por um leve mover de rosto, às vezes hesitante, por um frémito interior que nasce nas mais secretas camadas do ser. Se move músculos é porque não tem outra maneira de exprimir-se. Mas não terá? Não conhecemos nós sorrisos que são rápidos clarões, como esse brilho súbito e inexplicável que soltam os peixes nas águas fundas? Quando a luz do sol passa sobre os campos ao sabor do vento e da nuvem, que foi que na terra se moveu? E contudo era um sorriso.»

José Saramago