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terça-feira, 16 de agosto de 2011

Páginas descritivas II

"Num pequeno terraço sobre a cidade, enquanto vai pendurando a roupa ao sol (no chão de cimento as sombras como bandeiras), a senhora Kyioko explica-me em inglês que sempre quis ir a Lisboa porque, aos quatro anos, em Quioto, viu um bar chamado "Lisbon" e as letras luminosas a acender e apagar na noite fascinaram-na e marcaram-na. Anos mais tarde, aquilo veio-lhe à memória e ela foi ver a uma enciclopédia o que é que significavam essas letras, "Lisbon". Aprendeu que era uma cidade, a capital de um país chamado Portugal, que ficava na Europa, e construiu o sonho de viajar até lá, um dia. "Ainda hei-de lá ir", diz-me num sorriso enquanto tira uma camisa da corda. No cimento as bandeiras de sombra agitando-se um pouco."


- JACINTO LUCAS PIRES, in "Livro Usado" (2001), Livros Cotovia

Páginas descritivas

"As avenidas amplas e silenciosas, com reflexos nos vidros negros e uma ou outra bicicleta solitária; na berma da estrada, à volta de um buraco, as luzes caladas (como poucos sinais) girando - a noite limpa, brilhante.

Na ponte, no fim da noite, um homem de chapéu toca uma canção triste, e ao longe os prédios são cores na água, e no alto a lua é um ponto frágil."


- JACINTO LUCAS PIRES, in "Livro Usado" (2001), Livros Cotovia

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Um mundo em bico

Estou apaixonada pelas descrições presentes no livro que me encontro a ler. Aliás, todo o livro se materializa numa descrição do Japão, um país com vários corações, um em cada luz que se acende e apaga, todas elas formando um manto branco com palpites vermelhos de quando em quando. E é nesta viagem por páginas inteiras de descrição que vou descobrindo um mundo diferente do nosso, uma sociedade acelerada com multidões em todas as ruas e agradáveis pormenores que entre elas nascem que estou agora a conhecer.

"Em Shinjuku o fim da tarde é o azul do céu baixando, escurecendo, e – como um contra-peso, como se as coisas estivessem ligadas – as luzes de néon acendendo-se; e as pessoas passando mais e mais, e as janelas iluminadas aparecendo nos prédios com silhuetas negras, e os sons clareando (passos, uma voz ao longe, a porta de uma cabine telefónica, o tilintar das garrafas no cesto de uma bicicleta), e os brilhos pequenos deslizando nos automóveis, e à beira da estrada, na avenida, um homem velho de boné e acendendo um cigarro com toda a calma do mundo; o homem depois, de cigarro na boca, levantando os olhos – isso é o que me faz pensar no fim da tarde. No meio da rua, no meio de tantas coisas (vozes, rostos, corpos, cores), a sensação de que tudo está ligado entre si, que, de certa forma obscura, inexplicável, por linhas muito finas, transparentes, tudo se toca."

JACINTO LUCAS PIRES, in "Livro Usado (numa viagem ao Japão)"